RETRATO DA POPULAÇÃO TRANSEXUAL NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
Palavras-chave:
Relações sociais, Políticas públicas educacionais, Transexuais na EJAResumo
Eixo: Práticas educativas na EJA em diferentes contextos
Palavras-chave: Relações sociais. Políticas públicas educacionais. Transexuais na EJA.
Introdução
O interesse por investigar a realidade da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em municípios do interior baiano, como Planalto e Poções, não é casual, mas é sobretudo a possibilidade trazer voz, resistência e acessibilidade a sujeitos/as silenciados que carregam estigmas que os distanciam da educação. São territórios onde a diversidade de trajetórias de vida e os desafios sociais se manifestam de forma intensa, revelando as tensões entre a marginalidade imposta e a busca pelo direito à educação a população transexual. Nesse cenário, a sala de aula se mostra não apenas como uma questão de inclusão, mas como uma possibilidade de repensar práticas pedagógicas, políticas públicas e concepções de cidadania.
A motivação acadêmica também se fortalece no diálogo com referências que compreendem a educação como prática de liberdade, como nos ensinamentos de Freire (2006), e com autoras que problematizam as relações de gênero e sexualidade na escola, como Louro (2008). Goffman (1988) cita que o estigma, como mecanismo de classificação tem transformado indivíduos em portadores de identidade deteriorada. Essa concepção pode relacionar-se com norma de gênero, naturalizada sob perspectiva binária e compulsória que, a escola enquanto instituição social, amplifica e funciona muitas vezes neste viés ideológico.
Metodologia
Godoy (1995) ressalta que, para alcançar uma compreensão aprofundada do fenômeno investigado, é fundamental considerar todos os elementos presentes na realidade, uma vez que cada dado possui relevância e deve ser analisado em sua totalidade. A autora destaca que a escolha por uma metodologia qualitativa ocorre após a delimitação do problema e a definição clara dos objetivos do estudo. Essa abordagem se mostra adequada para este trabalho por permitir a apreensão do problema e de seus objetivos a partir de uma perspectiva que valoriza os significados atribuídos pelos sujeitos à sua vivência escolar.
A análise de conteúdo para dissertar sobre os dados do mapeamento e narrativas sobre os alunos transgêneros estão sendo construídas de acordo com o andamento da pesquisa. Além disso, esse caminho metodológico é dividido em três partes, a qual, segundo Bardin (2016), se inicia na análise da descrição, inferência e por último interpretação dos resultados. A autora ainda aponta que os procedimentos sistemáticos voltados à análise descritiva tratam de captar as informações contidas nas narrativas como “procedimento de poda” pelo refinamento do texto. Da enumeração a síntese, a extração é feita a partir do levantamento em duas escolas da rede estadual de Poções e Planalto, Bahia, identificando a presença de estudantes transexuais matriculados e/ou que já estiveram na EJA, mas por algum motivo tiveram de desistir. As reflexões oriundas dessas etapas serão integradas aos resultados da pesquisa e constituirão a base para a elaboração da dissertação.
Portanto, este trabalho busca dissertar sobre o sentido de o estudo para a população transexual voltar à escola. Este grupo, como observa Louro, (2012, p.47) “rejeita rótulos e títulos”, questionando as normas de identidade e comportamento impostas pela sociedade. A padronização derivada da heterossexualidade compulsória desafia as fronteiras que tensionam o que é socialmente aceito e o que é silenciado. As dimensões subjetivas e simbólicas das trajetórias desses sujeitos, articulando-as à objetividade do contexto social em que se inserem, de modo geral podem revelar como experiencias individuais e coletivas se entrelaçam no campo educacional.
Análise dos resultados
Os dados das entrevistas serão compreendidos como produções importantes que revelarão contradições, tensões, acolhimento e também estratégias de enfrentamento local diante do abandono e exclusão escolar. O exercício da escrita reflexiva implicará reconhecer a densidade das narrativas, cruzando-as com o referencial teórico e com os contextos sociais que marcam as trajetórias dos(as) participantes. Os relatos dos(as) participantes responderão de como suas experiências dentro da escola são/foram marcadas por acolhimento em alguns momentos, mas também por barreiras e exclusões.
Cinco estudantes foram selecionados, tendo duas mulheres transexuais moradoras de Planalto e três estudantes de Poções, Ba, sendo duas mulheres também e um homem trans. O estado da arte conta com quinze trabalhos selecionados que têm embasado as discussões acadêmicas acerca do tema em estudo, divididos entre dissertações de mestrado e teses de doutorado. Reunir estes dados tem chegado ao denominador comum a qual mostra que a presença de estudantes transexuais na escola pública é problemática longe de ter fim. O estigma, como citado na introdução é recebido sob uma “pedagogia da suspeita”, produzindo aquilo que Goffman (1988) descreve como “tensões estruturadas da interação social”, que exige sob aqueles que destonam da normalidade através da roupa, do gesto, nome ou pronome, identidade contate vigilância, julgamento e controle coletivo. De análise preliminar, dos cinco selecionados, somente uma pessoa conseguiu concluir o ensino médio na EJA. As outras quatro pessoas, abandonaram em algum momento, apresentando o desconforto, ausência de perspectiva de sucesso e abandono.
Considerações Finais
A Educação de Jovens e Adultos é um espaço que deve garantir o direito à educação para sujeitos historicamente marginalizados. Deve ser compreendida como um lugar de acolhimento, diversidade e respeito, no qual identidades plurais, como as de pessoas transexuais possam se afirmar como agentes de direito. Essa modalidade funciona também como uma política compensatória ao buscar reparar trajetórias interrompidas pela exclusão escolar.
Os estudantes da EJA apresentam percursos diversos, marcados por experiências de interrupção, trabalho precoce, violência e discriminação, mas também um forte processo de resistência, pois mesmo a sociedade e as instituições dizendo negando os seus direitos eles insistem, resistem em buscá-los. A exclusão se manifesta não apenas pela ausência, mas através da violência simbólica, como uso de nomes inadequados, deslegitimação de identidades e práticas pedagógicas excludentes e tradicionais. Apesar dos desafios, estudantes transexuais constroem formas de resistência, seja nas redes de apoio na escola, afirmação identitária e reivindicação de direitos.
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Referências
BARDIN, Laurence. "Análise de conteúdo”. 3ª edição." Lisboa: Edições 70 (2016): 224.
FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. 29. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GODOY, Arllda Schmidt. Uma revisão histórica dos principais autores e obras que refletem esta metodologia de pesquisa em Ciências Sociais. Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 35, n.2, p.57-63, mar./abr.1995.Disponível em: https://www.scielo.br. Acesso em: 16 abr. 2025.
GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1988.
LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
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