Saberes matemáticos que emergem do cotidiano de moçambicanos
Palavras-chave:
Saberes matemáticos, Moçambique, Educação Matemática decolonialResumo
Este trabalho analisa a constituição de saberes matemáticos em contextos moçambicanos, tendo como foco as práticas desenvolvidas por sujeitos que produzem conhecimentos em espaços que extrapolam a educação formal. A investigação foi realizada por meio de quatro entrevistas com participantes moçambicanos provenientes de distintos contextos sociais e profissionais, com a finalidade de compreender de que maneira conhecimentos matemáticos são mobilizados em suas experiências cotidianas, especialmente nas atividades de trabalho, comércio e manifestações culturais. O estudo tem como objetivo examinar os processos de constituição desses saberes em contextos culturais específicos, evidenciando suas formas próprias de organização e suas articulações com o cotidiano, problematizando a compreensão da matemática escolar como única referência legítima de conhecimento matemático. O aporte teórico está fundamentado em discussões sobre epistemologias africanas e Educação Matemática decolonial, assumindo que os saberes são produzidos de forma situada, plural e atravessados por dimensões históricas, sociais e culturais, a partir de referenciais construídos no próprio contexto africano. Metodologicamente, a pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza exploratória e interpretativa, utilizando entrevistas abertas como instrumento de produção de dados, cujas narrativas foram examinadas com o propósito de identificar diferentes formas de compreender, praticar e atribuir significados à matemática em variados contextos de vida. Os resultados revelam que conhecimentos matemáticos estão presentes em atividades como comércio, agricultura, pesca, eletricidade, culinária e dança, envolvendo processos de medição, contagem, cálculos mentais, gestão financeira e organização de quantidades. Além disso, observa-se que esses conhecimentos são, em grande medida, construídos por meio da experiência, da prática cotidiana e da transmissão comunitária, sem depender exclusivamente da escolarização formal. As narrativas também apontam que, para muitos participantes, a matemática ensinada na escola nem sempre estabelece relações diretas com suas vivências, embora seja reconhecida como importante para o desenvolvimento do raciocínio lógico e da capacidade de tomada de decisões. Desse modo, a pesquisa evidencia que múltiplas práticas cotidianas mobilizam conhecimentos matemáticos produzidos em diferentes espaços sociais, fortalecendo o reconhecimento de outras formas de produzir conhecimento e contribuindo para a consolidação de uma Educação Matemática orientada por perspectivas decoloniais e comprometida com a valorização de saberes historicamente invisibilizados.
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