ENTEROPARASITOSES COMO EXPRESSÃO DA NEGLIGÊNCIA SOCIAL NAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS DA BAHIA: REVISÃO DE LITERATURA
Palavras-chave:
Enteropatias Parasitárias, Helmintíases, População Negra, Quilombolas, Saúde PúblicaResumo
Introdução: As enteroparasitoses ainda representam um grave problema de saúde pública no Brasil, com maior incidência em populações negras residentes em comunidades quilombolas. Esses territórios, marcados por vulnerabilidades sociais, ausência de saneamento básico e dificuldade de acesso aos serviços de saúde, revelam a face mais cruel da desigualdade e do racismo estrutural no país. As infecções por parasitas intestinais, muitas vezes negligenciadas, provocam consequências físicas e sociais severas, como desnutrição, anemia, déficit cognitivo e perpetuação do ciclo de pobreza. O contexto quilombola evidencia a interligação entre determinantes sociais, ambientais e raciais da saúde, tornando urgente o debate sobre equidade e o fortalecimento das ações de prevenção e cuidado integral. Objetivo: Analisar os desafios enfrentados no diagnóstico e manejo clínico das enteroparasitoses em comunidades quilombolas da Bahia, relacionando-os às desigualdades sociais e raciais que afetam o acesso ao cuidado e à promoção da saúde. Metodologia: Revisão de literatura com abordagem qualitativa, realizada no primeiro semestre de 2025, por meio das bases da Biblioteca Virtual em Saúde. Utilizaram-se os descritores "enteropatias parasitárias", "helmintíases", “população negra”, "quilombolas" e "saúde pública", combinados pelos operadores booleanos “AND” e “OR”. Foram incluídos artigos gratuitos, disponíveis na íntegra, publicados entre 2018 e 2024, que abordassem as condições sanitárias, o diagnóstico e o tratamento de parasitoses em populações quilombolas ou negras rurais. Excluíram-se dissertações, teses e trabalhos fora da temática. Após a triagem, seis artigos compuseram a amostra final. Resultados: Os estudos analisados evidenciam que as enteroparasitoses permanecem amplamente disseminadas nas comunidades quilombolas, com prevalência especialmente elevada entre crianças e idosos. Foram identificadas infecções por protozoários como Giardia lamblia e Entamoeba histolytica, e por helmintos como Ascaris lumbricoides, Trichuris trichiura e Ancylostoma duodenale. A carência de infraestrutura sanitária, a baixa cobertura de saneamento básico e o uso de água contaminada favorecem a transmissão contínua desses parasitas. O diagnóstico enfrenta barreiras significativas devido à escassez de profissionais capacitados e à limitação de exames laboratoriais específicos. O tratamento, quando realizado, é pontual, sem acompanhamento longitudinal ou ações educativas, reforçando o ciclo de reinfecção e adoecimento. A ausência de políticas públicas direcionadas a essas populações evidencia a negligência histórica e estrutural em relação à população negra rural. Discussão: A análise demonstra que as enteroparasitoses em comunidades quilombolas extrapolam o campo biomédico, revelando dimensões éticas, sociais e raciais da desigualdade em saúde. O enfrentamento dessas infecções exige a valorização da atenção básica e da enfermagem como instrumentos estratégicos de transformação, por meio de educação em saúde, diagnóstico precoce e escuta sensível às necessidades locais. O adoecimento não deve ser compreendido isoladamente, mas como resultado da exclusão histórica e estrutural desses grupos. Conclusão: As enteroparasitoses em comunidades quilombolas representam uma expressão concreta da negligência social e racial no Brasil. Combater essas doenças é também combater o racismo institucional, garantindo acesso digno à saúde, promoção da equidade e fortalecimento do cuidado culturalmente sensível. A enfermagem desempenha papel essencial como mediadora entre conhecimento técnico e compromisso ético com a vida e a justiça social.
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Referências
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