Plantas Medicinais, Memória e Etnicidade: Práticas Freireanas na EPJAI no KM03

Autores

  • Matheus Da Silva Moraes UESB

Palavras-chave:

Plantas Medicinais, Botânica, Memória

Resumo

O ensino de botânica ainda enfrenta resistências no imaginário dos estudantes, que frequentemente o percebem como um conteúdo difícil e distante de sua realidade cotidiana. Essa percepção é reforçada por práticas pedagógicas tradicionais e descontextualizadas (Melo et al., 2012). No contexto da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EPJAI), tais desafios se intensificam, já que muitos estudantes chegam à escola após longas jornadas de trabalho, exigindo metodologias mais dialógicas e culturalmente situadas. Para romper com a lógica da “educação bancária” (Freire, 2022), foi proposta uma aula prática no jardim da escola, utilizando plantas medicinais presentes na comunidade local. O objetivo foi possibilitar uma compreensão aprofundada das propriedades terapêuticas, composição química e usos tradicionais dessas plantas, articulando saberes populares e científicos. Os estudantes foram convidados a identificar espécies, compartilhar histórias familiares, discutir usos e construir fichas catalográficas com nomes populares, científicos e aplicações terapêuticas. A escola está situada no bairro do KM3, território historicamente ocupado majoritariamente por pessoas negras, o que confere à experiência um caráter identitário e de resistência. As narrativas dos estudantes sobre o uso de plantas medicinais transmitidas por avós e ancestrais revelam a presença viva de uma memória coletiva que remete a práticas afro-brasileiras e indígenas de cuidado e cura. Essa relação entre botânica e memória cultural reflete o que Stuart Hall denomina identidades em construção — processos dinâmicos de pertencimento e afirmação (Hall, 2003). Além disso, reforça a ideia de que os saberes tradicionais são formas legítimas de produção de conhecimento e de resistência cultural (Gomes, 2005). Essa abordagem dialoga com uma pedagogia crítica, que reconhece no território e na memória dos sujeitos elementos fundamentais para o ensino-aprendizagem. As experiências compartilhadas durante a aula reafirmam que educação e cultura não estão dissociadas: o conhecimento botânico se entrelaça com identidades étnicas, práticas ancestrais e vínculos comunitários. Como defendido por Paulo Freire, a educação libertadora acontece quando educador e educando constroem juntos os saberes, a partir de suas experiências concretas (Freire, 2022). Os resultados evidenciam que metodologias participativas e interculturais fortalecem a aprendizagem significativa, promovendo a valorização da herança cultural afro-brasileira e indígena. A aula de botânica se transforma, assim, em um espaço de construção de identidades, fortalecimento da memória e afirmação de pertencimentos coletivos.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 82ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

GOMES, Nilma Lino. Educação, identidade negra e formação de professores. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 7. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

MELO, E. A.; ABREU, F. F.; ANDRADE, A. B.; ARAUJO, M. I. O. A aprendizagem de botânica no ensino fundamental: Dificuldades e desafios. Scientia Plena, [S. l.], v. 8, n. 10, 2012. Disponível em: https://scientiaplena.org.br/sp/article/view/492. Acesso em: 26 jan. 2024.

Downloads

Publicado

2026-07-23

Como Citar

MORAES, Matheus Da Silva. Plantas Medicinais, Memória e Etnicidade: Práticas Freireanas na EPJAI no KM03. Semana de Educação da Pertença Afro-Brasileira, [S. l.], v. 3, p. 276–277, 2026. Disponível em: https://anais2.uesb.br/index.php/sepab/article/view/6007. Acesso em: 26 jul. 2026.

Edição

Seção

Resumos - GT 01 - Etnicidade, Memória e Educação