A memória étnica da colonização em Moçambique através da fotografia: diálogos com a visão brasileira
Palavras-chave:
Decolonialidade, fotografia colonial, memória étnicaResumo
O presente estudo analisa o papel da fotografia colonial na construção da memória étnica em Moçambique e suas ressignificações no período pós-independência, em diálogo com interpretações produzidas por pesquisadores brasileiros. Vinculado à linha “Etnicidade, Memória e Educação” do PPGREC/UESB, o trabalho propõe uma abordagem interdisciplinar que articula história, antropologia visual e estudos pós-coloniais. O problema central consiste em compreender de que forma a fotografia colonial contribuiu para a formulação de representações étnicas dos povos moçambicanos, frequentemente classificadas e hierarquizadas segundo padrões eurocêntricos (Edwards, 2001; Ryan, 1997), e como tais imagens vêm sendo reinterpretadas à luz dos conceitos de etnicidade e memória (Arruti, 1997; Cardoso de Oliveira, 2000; Cunha, 2009). No contexto moçambicano, ainda são pouco exploradas as dimensões relativas à produção de categorias étnicas pelas fotografias coloniais e às formas de ressignificação dessas imagens no presente. A pesquisa busca avançar em relação à coletânea de Vicente e Ramos (2023), que ampliou o debate sobre a fotografia no império português, mas pouco investigou o contexto específico de Moçambique e suas leituras locais e transnacionais. O diálogo com o Brasil não se estrutura como comparação sistemática, mas como aproximação crítica: as interpretações de pesquisadores brasileiros sobre fotografias coloniais moçambicanas permitem evidenciar tanto convergências quanto tensões na forma como legados visuais coloniais são narrados no Sul Global. A metodologia adota abordagem qualitativa, tendo como corpus fotografias coloniais do Arquivo Histórico de Moçambique, selecionadas a partir de critérios como diversidade étnica, tipologias visuais (retratos, rituais, trajes, escolas missionárias) e marcadores de hierarquia colonial. As imagens são analisadas com base em referenciais iconológicos e críticos (Barthes, 1984; Tagg, 1988; Hall, 1997), articulados a entrevistas semiestruturadas com pesquisadores brasileiros, em diálogo com perspectivas críticas e decoloniais. Resultados preliminares apontam que a fotografia colonial funcionou como tecnologia de poder ao naturalizar categorias étnicas e estereótipos, mas hoje é reapropriada como lugar de memória (Nora, 1993), resistência cultural e afirmação identitária. Assim, a fotografia emerge como mediadora entre passado e presente, contribuindo para a consolidação de perspectivas decoloniais sobre a memória étnica no espaço transnacional Moçambique–Brasil.
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Referências
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