MUTAÇÕES DO TRABALHO NO CAPITALISMO E OS SEUS IMPACTOS NA SUBJETIVIDADE DO TRABALHADOR DOCENTE
Palavras-chave:
Trabalho, Subjetividade, Identidade, Memória, ExperiênciaResumo
NTRODUÇÃO
Com a crise do setor industrial e a expansão do setor de serviços, ganha relevo a chamada acumulação flexível (Harvey, 1992). O capitalismo flexível marca aquilo que Sennett denominou de fenecimento da ideia tradicional de carreira (Sennett, 2009, p.22), sendo esta substituída por um conjunto de atividades, por sua natureza mutáveis, transitórias, parcamente remuneradas e não regulamentadas ou desregulamentadas. Os vínculos empregatícios são raros; o trabalhador não é mais o empregado fordista clássico, que tinha a certeza de sua remuneração e de uma futura aposentadoria: é chamado de “parceiro”, “colaborador”, “consultor”, “integrante”. O trabalho, conforme afirma Antunes, é “mais desregulamentado, mais informalizado, mais precarizado, mais intensificado, mais polivalente, mais multifuncional” (Antunes, 2009, p.30).
Neste contexto, exige-se do trabalhador não só performance: mas que ele esteja disposto a se reinventar, continuamente, pelo serviço. Segundo Dal Rosso (2017), trata-se de flexibilizar não só corpos, mas também as mentes, o que revela uma nova adaptação psicofísica do trabalhador: “Por isso é necessário desvendar o processo de formação de trabalhadores flexíveis, o que requer um novo aprendizado do que seja o trabalho e de suas especificidades flexíveis” (Dal Rosso, 2017, p. 268).
O objetivo geral do presente trabalho é analisar a maneira como as transformações no capitalismo contemporâneo repercute sobre as formas de trabalho e na constituição da subjetividade dos trabalhadores, informada pela experiência e pela memória. O campo empírico é formado por docentes das instituições privadas de ensino superior na Bahia, tendo sido escolhidas as cidades de Itabuna, Ilhéus e Vitória da Conquista. A partir deste recorte pretendemos: a) investigar de que maneira o capitalismo flexível e a reestruturação produtiva impactam as relações de trabalho no ensino superior privado brasileiro; b) Evidenciar os ecos provocados pelas alterações do processo do trabalho na subjetividade destes trabalhadores que relatam uma “experiência de deriva”(Sennet, 2009, p.31) desorganizadora da própria identidade porque desintegradora de sua memória e experiência.
É por esta razão que urge o estudo a respeito desta categoria profissional: não só por entender que constituem grupo de pessoas onde são verificáveis, com clareza solar o novo modo de vida forjado a partir desta faceta do modo de produção capitalista, bem como por compreender que o trabalho educativo submetido e reduzido à ética do capital, serve à reprodução das relações sociais de dominação, a partir da perpetuação de suas aparências fetichistas.
METODOLOGIA
Este trabalho é um recorte de pesquisa de doutoramento desenvolvida no “Programa de Pós-Graduação em Memória, Linguagem e Sociedade” (UESB) em que tem se realizado, para além da pesquisa bibliográfica-documental, entrevistas semi-estruturadas com docentes do ensino superior privado de cidades pertencentes aos três pólos educacionais supracitados. Utilizamos a técnica de amostragem conhecida por “snowball sampling” ou amostragem em bola de neve (Vinuto, 2014) que conta com a capacidade e disponibilidade dos entrevistados de recrutar ou indicar novos participantes. Estes são indicados pela insígnia “P001”, “P002”, que indica a ordem com que foram entrevistados.
Do ponto de vista analítico, adotamos como referência a concepção materialista da história (Marx, 1983), relacionando as particularidades do ensino superior privado brasileiro às determinações mais amplas da sociabilidade capitalista. No caso em tela, as categorias precarização e flexibilidade nos dão suporte à investigação. Para tanto, nos serviremos dos ensinamentos contidos em livros, artigos, e periódicos de autores nacionais e internacionais que se debruçaram sobre as categorias “trabalho”, “educação”, “neoliberalismo”, “memória”, a exemplo de Antunes (2009), Dal Rosso (2017), Harvey (1992), Mello (2022), Sennet (2009), dentre outros que, sobremaneira, enriquecerão a nossa perspectiva.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
O status de empresa flexível tem sido incorporado pelas instituições de ensino superior privado no Brasil, submetendo os seus profissionais docentes não só a condições precarizadas de trabalho (elevado número de estudantes por turma, baixas remunerações, etc), como à insegurança a respeito da permanência das condições do vínculo de emprego.
Semestralmente, o docente das instituições de ensino superior privado baianas se vê fragilizado em seu vínculo de emprego, de distintas formas: Em termos materiais- porque uma vez que não há o mínimo de fixidez ou estabilidade no currículo educacional, ou este profissional se submete a ministrar aulas de disciplinas as quais não pertencem à sua área de especialização (muitas vezes tendo que elaborar materiais e conteúdos para semestres inteiros em poucos dias) ou se arrisca a não trabalhar – e, portanto, não receber, uma vez que são contratados como horistas. Em termos remuneratórios, a contenda se revela ainda mais preocupante: a alteração contratual que prevê, num lapso temporal de 180 dias a supressão de horas trabalhadas e, por consequência, a redução salarial não configura infração ao princípio da irredutibilidade salarial consagrado constitucionalmente (artigo 7º, inciso VI, CF) porque executada de tal forma ardilosa - não raro contando com as brechas nos instrumentos coletivos de trabalho forjados pelos sindicatos representativos da categoria profissional e falhas na fiscalização dos contratos de trabalho- que encontra guarida legal sendo consideradas legítimas.
Assim, com os seus contratos de trabalho alterados de todas as formas possíveis – do objeto do seu trabalho em si ao lastro remuneratório – os docentes do ensino superior privado se veem em uma situação onde ou se mostram extremamente tolerantes, adaptáveis e flexíveis às mudanças que lhes são coercitivamente impostas (com a aparência de consentimento) ou não têm trabalho. É o que se depreende da narração de P0013 quando evoca de sua memória:
Todo início de semestre era um sofrimento, porque a gente não tinha ideia de quantas turmas iam ter, de qual ia ser o salário da gente, nem se a gente ia estar empregado. Quantos semestres eu sofri aqui, desesperada, porque não faziam contato comigo, e eu dizia: “meu Deus, eu não vou ficar! eles vão me mandar embora, eu não vou ficar”. E aí na última hora que entrava em contato, ia lá, e graças a Deus! Mas, por exemplo, já teve semestres de eu receber apenas 600 reais (P0013).
Os docentes, desta forma, ou se reinventam a cada semestre, aprendendo novos conteúdos “do zero”, submetendo-se a exigências laborais impossíveis de serem concretizadas na realidade - as famosas “metas institucionais” (como o comando de tratamento individualizado para com os discentes, e a realização de metodologias ativas que permitam ao estudante “ser protagonista” com salas superlotadas e sem estrutura física para suportar a quantidade de estudantes por classe) ou ficam sem trabalhar. Na “universidade flexível” (Mello, 2022) o trabalho é gerido tão tiranicamente quanto na fábrica, mas tem o caráter opressivo de sua gestão disfarçado, para que possa ser lido como “aparentemente mais participativa, aparentemente mais envolvente e aparentemente menos despótico” (Antunes, 2009, p.29).
As universidades flexíveis são, na contemporaneidade, os espaços de trabalho que configuram os casos de maior sucesso na instalação de uma subjetividade reipersecutória do trabalhador para consigo mesmo:
Sou funcionária padrão. Mas isso é meu. Eu trabalho bem com metas, sou capricorniana: meta dada é meta cumprida. Eu me sinto na indústria. Vira e mexe então fazendo o que? Industrialização da educação. Não tem aquela história da educação não é mercadoria? Tá se tornando (P0014).
Para além disso, se a universidade flexível embora exerça a direção do trabalho com a mesma disciplina fordista – só que intensificada- uma vez que se reveste do ethos empresarial, o professor, ora explorado como um operário, precisa simultaneamente ostentar o porte de vendedor de um negócio próprio. É o que se depreende da fala dos participantes transcritas, abaixo.
O professor da universidade privada, ele traz essa mesma base que todo educador tem, mas ele ainda tem que ser vendedor. Esse aqui é o babado, tem que ser vendedor, tem que vender esse peixe. Quando você está dando aula, você está vendendo esse peixe. É a mesma coisa da pessoa que está passando ali na loja e você está falando: “olha, você já experimentou esse produto tal, olha aqui!” é a mesma coisa. E o produto é a educação. A educação vira comércio: o aluno está pagando por aquilo ali, pelo conhecimento... ele acaba virando isso: mercadoria (P0011).
CONCLUSÕES
A ausência de um papel fixo a ser desempenhado a título de labor leva à dificuldade, observada em grande parte dos entrevistados em se ver com clareza e afirmar: “é isto o que eu faço, é por isso que sou responsável” (Sennett, 2009, p.18). Esta dificuldade na construção de uma identidade é sintoma típico do capitalismo flexível, e a sua exigência constante por inovação e mudança que demandam do trabalhador adaptabilidade, tolerância a fragmentação e negação da própria experiência no trabalho e que, forjando uma moldura por onde ele lê a vida, resulta no sentimento constante de que esteja “sempre começando, o passado entregue ao esquecimento” (Sennet, 2009, p.29).
Assim, o que esses trabalhadores experimentam, no lugar da construção de um “senso de eu”, é o que Sennet denominou de “experiência de deriva” (Sennet, 2009, p.31), assim entendida uma sensação difusa de desamparo e desorientação que produzem, ao final, resignação, como reconhecimento do “peso da realidade objetiva” (Sennet, 2009, p.161).
Trabalho; Subjetividade; Identidade; Memória; Experiência
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Referências
ANTUNES, Ricardo. Da pragmática da especialização fragmentada à pragmática da liofilização flexibilizada: as formas de educação no modo de produção capitalista. Germinal: marxismo e educação em debate, v. 1, n. 1, p. 25–33, 2009. Disponível em: https://revbaianaenferm.ufba.br/index.php/revistagerminal/article/view/9834. Acesso em: 18 maio. 2026.
ROSSO, Sadi Dal. O ardil da flexibilidade: os trabalhadores e a teoria do valor. São Paulo: Boitempo, 2017.
HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1992.
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
MELLO, Fábio Mansano de. Memórias da mercantilização do ensino superior: a consolidação da “universidade flexível”. Vitória da Conquista: Edições UESB, 2022.
SENNET, Richard. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Editora Record, 2009.
VINUTO, Juliana. A amostragem em bola de neve na pesquisa qualitativa: um debate em aberto. Temáticas, Campinas, v. 22, n. 44, p. 203-220, 2014. Acesso em: 20 de maio de 2025.
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