A TOMADA DE POSTURA DE PROFESSORES EM FORMAÇÃO SOBRE A QUESTÃO: A IA PODE ROUBAR SEU EMPREGO?

Autores

Palavras-chave:

Avaliação, Inteligência Artificial, Percepção de professores, Posicionamento, Tomada de postura

Resumo

Introdução

A Inteligência Artificial (IA) é um recurso que tem estado cada vez mais presente na vida profissional das pessoas. Martins et al. (2024) investigam o conhecimento e a percepção de professores de uma escola técnica do estado de São Paulo acerca da Inteligência Artificial. A pesquisa indica que os professores têm pouco conhecimento sobre algumas das tecnologias digitais usadas no mercado de trabalho, sobretudo as que se relacionam com a IA; os educadores não acreditam na premissa de que a tecnologia seja uma “ameaça ao seu emprego” e reconhecem, positivamente, que as ferramentas tecnológicas os obrigam a atualizar seus conhecimentos e melhoram o trabalho pedagógico; a IA reduzirá os empregos repetitivos e será bastante utilizada no ensino a distância e em ambientes virtuais; o ensino de competências socioemocionais, éticas e a mediação pedagógica continuarão a cargo de professores humanos.

Araújo, Santos e Sabino (2025) asseveram que o número de pesquisas voltadas à percepção de professores acerca da inteligência artificial no contexto escolar ainda é limitado. Contudo, tais estudos são fulcrais para a implementação dos recursos tecnológicos no ambiente escolar, posto que a escuta qualificada dos docentes identificará suas reais necessidades e demandas. Na esteira desse estudo, o presente trabalho tem como objetivo observar a percepção de professores em formação sobre a possibilidade de a Inteligência Artificial substituir seu emprego, visto que esta já é uma realidade de outras profissões. Tal estudo se justifica na medida em que a percepção que os professores têm sobre a IA pode refletir na sua prática docente.

 

Metodologia

               Neste trabalho, analisamos o posicionamento de oito professores em formação em relação à questão “A IA pode roubar o seu emprego?”. Os dados selecionados fazem parte do banco de dados do projeto “Tomada de postura e multimodalidade: análise de entrevistas”[1], composto por 15 entrevistas semiestruturadas de quinze pares de jovens adultos, com duração média de 15 minutos cada, sobre diferentes questões relacionadas à inteligência artificial. Os sujeitos entrevistados são todos estudantes dos cursos de Letras Vernáculas e Modernas, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB).

            Os dados foram analisados com base no Modelo do Triângulo da Postura (Du Bois, 2007). Conforme Du Bois (2007, p. 169), a postura é um ato social realizado por atores sociais no qual eles avaliam objetos, posicionam sujeitos e se alinham com outros sujeitos do discurso. Assim, o modelo visa observar três pontos fundamentais da tomada de postura: a avaliação, o posicionamento e o alinhamento. Para este estudo, focamos nos aspectos da avaliação e do posicionamento, visto que o nosso objetivo é verificar a percepção dos professores em formação em relação à possibilidade da IA roubar seus empregos.

 

Resultados e discussão

Ao analisar as respostas de oito professores em formação à pergunta “A IA pode roubar o seu emprego?”, obtivemos diferentes perspectivas em relação a essa questão, tanto do ponto de vista da avaliação que esses sujeitos fazem a respeito da inteligência artificial substituir o professor, quanto do posicionamento que eles tomam frente a esse ponto.

A respeito da avaliação, em suas respostas, os professores avaliaram diferentes aspectos da IA, como o fato de ela não ter a empatia (4) [2], de ela ser uma máquina de automação (2), a qualidade do ensino de uma IA (1) e o conteúdo gerado pela IA (1). Embora os sujeitos tenham avaliado diferentes aspectos referentes às características e qualidades da IA, todas as respostas tiveram em comum o fato de as avaliações terem sido negativas.

Com relação ao posicionamento, nós identificamos três tipos de pontos de vista: 1) a IA não roubará o emprego do professor, com 5 respostas a favor; 2) a IA pode roubar o emprego do professor, com 2 respostas a favor; e 3) a IA irá roubar o emprego do professor, com 1 resposta a favor.

Tendo em vista esses dados gerais, a seguir, apresentamos três dados ilustrativos do nosso corpus, referentes a cada um dos tipos de posicionamento surgidos.

No exemplo em (1), o sujeito avalia a empatia do professor em uma sala de aula, a sua capacidade de “ler a sala de aula”, como a participante pontua, capacidade essa que um sistema de inteligência artificial não conseguiria ter. Desse modo, o posicionamento dessa professora é o de que a IA não roubará o emprego do professor.

  • “Nossa, eu acho que o nosso campo, que é a licenciatura, eu acho um pouco, muito difícil, mas, aí eu não sei porque, tá chegando tanto esse ar, sabe, em tanto lugar, em tantos lugares. Mas é muito [/][3] eu acho impossível que uma inteligência artificial dê uma aula como um professor, de verdade, um professor bom, que [/] porque não é só chegar lá e dar a matéria, eu acho que a gente tem que ler a sala de aula, a gente tem que olhar para a humanidade, olhar para o aluno, olhar para o que que está acontecendo. Igual um professor que falou, né, isso, ele chegou pra dar um assunto e ele não leu a sala de aula. Então, ele deu um assunto que a sala de aula não estava preparada naquele momento. Pode ser que em uma segunda-feira, mas em uma sexta-feira, já no quinto horário de aula. E eu acho que a inteligência artificial não consegue ver isso. Não consegue entender, aquele aluno ali está precisando de uma ajuda, sabe? Eu estou vendo que aquele aluno ali está passando por alguma coisa na família, eu tenho que ver isso.”

Em (2), temos o posicionamento de que a IA pode roubar o emprego do professor, o qual é marcado apenas por uma possibilidade. No exemplo, a falante avalia a qualidade do ensino da IA, que não é tão boa quanto a do professor. No entanto, ela argumenta que, se o empregador não estiver preocupado com a qualidade do ensino, pode ser que a IA roube o emprego do professor.

  • “Assim... se roubar, é porque quem [/] o empregador não tá preocupado com a qualidade do ensino, ou a qualidade da arte. Enfim, eu acho difícil você colocar um professor de IA pra substituir o professor real, mas eu não duvido que eles venham a fazer isso, mas não teria efeitos bons.”

Já na resposta em (3), o posicionamento de que a IA  roubará o emprego do professor é observado, apesar de o sujeito expressar que roubar não seria a palavra exata para esse contexto. Em sua avaliação, o falante reflete sobre a inutilidade do papel do professor na sala de aula quando o aluno tem acesso à IA, logo, se o professor se torna inútil, ele pode ser substituído pela IA.

  • “Eu acho que roubar não seria a palavra certa. Eu acho que torna inútil. No caso pra um professor, ele é meio que inútil em sala de aula, porque o que ele aplicar pra um aluno, o aluno, se souber direito, ele pode conseguir através de uma IA. Assim como pra gente, universitário, às vezes a IA é um segundo professor quando a sala de aula carne e osso não dá conta, ou simplesmente você não consegue pegar o que o professor de verdade fala. Então roubar o emprego não, mas tornar inútil sim.”

Os dados analisados neste estudo, em sua maioria, estão de acordo com a percepção dos professores observada por Martins et al. (2024), visto que os professores em formação entrevistados entendem que a IA não é uma ameaça ao seu emprego, principalmente, pelo fato de  ela não ter as habilidades socioemocionais necessárias para lidar com uma sala de aula. No entanto, o posicionamento de um dos sujeitos foi de que a IA torna inútil o papel do professor, o que demonstra a pluralidade de pontos de vista e argumentos acerca do tema, além de apontar para a necessidade de promover tal discussão nos cursos de licenciatura, a fim de levar os futuros docentes a refletir sobre as potencialidades e os limites do uso de IA na sala de aula e como incorporá-la, positivamente, à sua prática docente.

 

Conclusões

            Neste estudo, tivemos como objetivo verificar a percepção de professores em formação sobre a possibilidade de a Inteligência Artificial substituir seu emprego. Os nossos resultados apontam, em sua maioria, para uma descrença dos professores sobre a possibilidade de a IA exercer plenamente a função do professor, tendo em vista que faltam à IA habilidades socioemocionais para atuar em sala de aula. Desse modo, ela pode ser usada como uma ferramenta de apoio ao aprendizado e de auxílio à prática docente. No entanto, ela não consegue substituir por completo o papel do professor, visto que este atua em um ambiente complexo e dinâmico, que demanda criticidade, sensibilidade e criatividade, o que ultrapassa os limites das possibilidades de atuação da IA.

 

[1] Projeto aprovado pelo comitê de ética: CAAE 89214825.6.0000.0055; número do parecer 7.714.207.

[2] Os números em parênteses representam a quantidade de respostas obtidas por aspecto avaliado.

[3] [/] foi utilizado para indicar uma reformulação da frase pelo participante.

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Biografia do Autor

Jéssica Caroline Souza Aguiar, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Mestre em Linguística pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística - PPGLin, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB e graduada em Letras Modernas pela mesma universidade. É membro do Laboratório de Linguística Cognitiva e Estudos de Gesto - LabGest (DGP/CNPq). Atualmente, é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Linguística - PPGLin (UESB), no qual investiga a relação entre tomada de postura e gestos no Português Brasileiro. ORCID ID: 0000-0002-6267-5199.

William Santos Teixeira, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vitória da Conquista, Bahia, Brasil

Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras: Cultura, Educação e Linguagens (PPGCEL) pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), sob a orientação da profa. Dra. Iara Cerqueira Linhares de Albuquerque. Possui graduação em Letras Vernáculas (2017) pela universidade referida e especialização em Docência para a Educação Profissional e Tecnológica pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (2024). Atua como docente de língua portuguesa da Secretaria de Educação do Estado da Bahia.

Maíra Avelar Miranda , Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Professora Plena da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), campus de Vitória da Conquista. Atua no Departamento de Estudos Linguísticos e Literários, ministrando disciplinas na Graduação, na Área de Linguas Estrangeiras e suas respectivas Literaturas (ALEL). Na pós-graduação atua no Programa de Pós-Graduação em Letras: Cultura, Educação e Linguagens (PPGCEL), ministrando disciplinas e orientando trabalhos no âmbito do projeto '' Linguagem e Comunicação Multimodal: análise de diferentes contextos interacionais'', e no Programa de Pós-graduação em Linguística (PPGLin), orientando trabalhos no âmbito do projeto ''Linguística, Cognição e Multimodalidade''. É líder do Laboratório de Linguística Cognitiva e Estudos de Gestos - LabGest (DGP/CNPq) e coordenadora, juntamente com e Lilian Ferrari (UFRJ) e Tiago Torrent (UFJF), do Brazilian Red Hen Lab (sediado na UCLA e na Case Western Reserve University). Participa oficialmente das seguintes associações internacionais: Researching and Applying Metaphor (RaAM), na qual se encarrega do Grants and Prizes Office (2026-2028), International Cognitive Linguistics Association (ICLA), International Society for Gesture Studies (ISGS), , ABRALIN (Comissão de Linguística Cognitiva), Anpoll (GT Linguagem e Cognição).

Referências

ARAUJO, Helen Cristina; SANTOS, Audrey Teles dos; SABINO, Geruza de Fátima Tomé. Percepção docente sobre a inteligência artificial na educação básica: revisão da literatura. SciELO Preprints, p. 1-14, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.12454. Disponível em: https://preprints.scielo.org/index.php/scielo/preprint/view/12454. Acesso em: 29 maio 2026.

DU BOIS, J. W. The stance triangle. In: ENGLEBRETSON, R. (ed). Stancetaking in

discourse. Amsterdam/ Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 2007.

MARTINS, Rodrigo Henrique; VIANA, Helena Brandão; BARBOSA, Ronaldo; TAVARES, Cristina Zukowsky. O uso da Inteligência Artificial na educação: análise e percepção de professores. REVISTA INTERSABERES, [S. l.], v. 19, p. 1-28, 2024. DOI: 10.22169/revint.v19.e24do3002. Disponível em: https://www.revistasuninter.com/intersaberes/index.php/revista/article/view/2619. Acesso em: 29 maio 2026.

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Publicado

2026-11-04