REFORMAS DO ENSINO MÉDIO BRASILEIRO: ENTRE MEMÓRIA E PROMESSAS

Autores

Palavras-chave:

Contrarreforma do Ensino Médio, Memória social, Memória/promessa

Resumo

O trabalho busca compreender as articulações entre a produção de políticas educacionais para o ensino médio brasileiro e a mobilização de uma memória social e coletiva que busque referendá-las, dialogando com Halbwachs (2004; 2006) quanto ao caráter social da memória e mobilizando as categorias "manipulação" e "ideologia" para compreender a contrarreforma do ensino médio em sua totalidade e contradições, a partir da dialética memória-promessa proposta por Ricoeur (2007). A pesquisa, de abordagem qualitativa e natureza histórico-documental, constitui seu corpus a partir da legislação educacional relativa à contrarreforma do ensino médio — da Medida Provisória nº 746/2016 até a Lei nº 14.945/2024 —, documentos do MEC e do CNE, e relatórios de entidades como a ANPEd e a CNTE, analisados a partir de três eixos: as promessas declaradas nos textos legais, as condições institucionais previstas para sua realização e os resultados documentados ou esperados.

Os resultados evidenciam um padrão recorrente nas reformas do ensino médio, nas quais promessas de democratização, qualidade e equidade são sistematicamente adiadas por obstáculos estruturais como insuficiência de financiamento e persistência da dualidade entre formação propedêutica e técnica; a Lei nº 13.415/2017, por exemplo, prometeu maior flexibilidade curricular por meio dos itinerários formativos, mas produziu implementação desigual entre estados e terceirização da formação técnica, enquanto a Lei nº 14.945/2024, ao retomar a centralidade da formação geral básica, enfrenta os mesmos obstáculos estruturais das reformas anteriores, como evidenciado pelo veto presidencial à cobrança dos itinerários formativos no ENEM. Conclui-se que a categoria memória e promessa revela-se fecunda para identificar tanto as continuidades entre as diferentes promessas educacionais quanto o modo pelo qual as memórias das reformas fracassadas tendem a ser apagadas ou reconfiguradas a cada novo ciclo, produzindo um efeito de novidade que oculta a recorrência dos mesmos impasses estruturais.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Sandra Regina Mendes, Universidade do Estado da Bahia

Doutora pelo Programa de Pós Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade (PPGMLS). Pesquisa políticas educacionais voltadas para o ensino médio, especialmente em articulação com o ensino de História, mobilizando o campo da Memória para o estudo da História da Educação e da disciplina História em sua dimensão escolar. Professora Assistente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus XVIII, em Eunápolis, com atuação nos componentes curriculares na área de Estágio Supervisionado e Laboratório do Ensino de História. Também atua como conselheira no Conselho Municipal de Educação (CME) e no Fórum Municipal de Educação (FME). Coordena o subprojeto PIBID UNEB/PROINN (2025-2026). É membro do Grupo de Pesquisa ''Estudos e Pesquisas em Historiografia e ensino de História'' (GEPHENS) e do grupo História e Memória das Políticas Educacionais e Trajetórias Sócio-geracionais (GHEMPE) . Filiada à Asssociação Nacional de História/Sessão Bahia (ANPUH/BA) e à Associação Brasileira de Ensino de História (ABEH). Formada em História pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), com mestrado em Cultura e Turismo pela mesma universidade e especializações na área de educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e UESC.

Referências

BRASIL, Ministério da Educação/Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. A Educação na nova Constituição: o ensino do segundo grau. Em Aberto, Brasília, ano 8, n. 41, jan/mar. 1989.

BRASIL. Comissão mista da Medida Provisória n. 746. Gabinete do Senador Pedro Chaves (relator). Parecer 95 de 2016 sobre a Medida Provisória

n. 746 de 22 de set de 2016. Sala da Comissão 30 de novembro de 2016.

BRASIL. Lei n. 13.415, de 16 de fevereiro de 2017. Altera as Leis n. 9.394, de 20 de novembro de 1996. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 2017.

HALBWACHS, Maurice. A Memória coletiva. São Paulo: Editora Centauro, 2006.

HALBWACHS, Maurice. Los marcos sociales de la memoria. Rubí (Barcelona): Anthropos Editorial; Concepción; Universidade de la Concepción: Caracas; Universidade Central de Venezuela, 2004.

LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino público. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2019.

RICOUER, Paul. Percurso do reconhecimento. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

RICOUER, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas/SP: Editora da Unicamp, 2007.

TARLAU, Rebecca; MOELLER, Kathryn. O consenso por filantropia: como uma fundação privada estabeleceu a BNCC no Brasil. Currículo sem Fronteiras, v. 20, p. 553-603, maio-ago. 2020.

Downloads

Publicado

2026-11-04