A SUBJETIVAÇÃO E REVITIMIZAÇÃO DA VÍTIMA DE ESTUPRO: PRODUÇÃO DISCURSIVA EM UM ACÓRDÃO

Autores

Palavras-chave:

Dispositivo, Mulheres, Poder, Saber, Subjetividade

Resumo

O trabalho busca responder como os dispositivos de poder e saber contribuem para a produção de discursos de revitimização das mulheres vítimas de estupro no sistema judiciário brasileiro, objetivando analisar como esses dispositivos atuam na construção da subjetividade feminina a partir dos conceitos foucaultianos de poder, saber e dispositivo, reforçando a culpabilização das vítimas desse crime. Fundamentada na arqueogenealogia foucaultiana (Gregolin, 2022; Foucault, 2007a; 2007b), a pesquisa qualitativa, de natureza documental e bibliográfica, constitui seu corpus a partir de três fragmentos selecionados de um acórdão que absolveu um réu acusado de estupro de vulnerável, cuja vítima era uma mulher alcoolizada abusada por um motorista de aplicativo.

A análise dos excertos evidencia que o discurso jurídico, ao destacar o consumo prévio de álcool pela vítima e reinterpretar lesões físicas como compatíveis com a hipótese de consentimento — fundamentando-se inclusive em doutrina que nega a condição de vítima a quem se embriaga voluntariamente —, produz um sujeito feminino moralmente suspeito, deslegitimado em sua palavra e destituído do poder-saber de falar sobre si, remetendo à histórica divisão entre "mulheres honestas" e "desonestas" presente no antigo Código Penal. Conclui-se que os discursos da magistrada constituem um conjunto de vontade de verdade que não se limita à aplicação normativa, mas atua na produção de subjetividades femininas conforme uma linha divisória discriminatória que define quem possui legitimidade para figurar como vítima de estupro, reforçando a importância da reflexão crítica sobre práticas discursivas que associam a credibilidade da vítima à sua conformidade com padrões morais.

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Biografia do Autor

Rebeca Vitória Teixeira de Jesus, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Graduanda de Direito pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Bolsista de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq) no Grupo de Pesquisa em Estudos Feministas, Gênero e Diversidade (VIVAS-UESB), atuando na linha de pesquisa acerca de subjetividade, corpo e resistência feminina, com base em Michel Foucault. Dedica-se ao estudo teórico por meio de leituras doutrinárias sobre os seguintes temas: Direito Penal, interseccionalidade e a relação do racismo com a violência estatal.

Janaína de Jesus Santos , Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vitória da Conquista, Bahia, Brasil

Realizou Estágio pós-doutoral (2018-2019) no Programa de Pós-Graduação em Letras: cultura, educação e linguagens, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB, possui Doutorado em Linguística e Língua Portuguesa (2014) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquista Filho - UNESP, Mestrado em Estudos Linguísticos (2011) pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Especialização em Linguística aplicada ao Ensino do Português (2006) e Graduação em Letras com habilitação em português e inglês e respectivas literaturas (2001) pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB. É professora titular na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB, atua no Programa de Pós-graduação em Letras: Cultura, Educação e Linguagem -PPGCEL/UESB e Programa de Pós-graduação em Ensino, Linguagem e Sociedade - PPGELS/UNEB e participa do Grupo de Pesquisa em Estudos Feministas (Viva's - GEPEF). Atua nas áreas de Estudos Discursivos Foucaultianos, Ensino, Formação de professores, Linguística Aplicada, com interesse nos temas: feminismos, ensinos e linguagens, formação de professores de línguas, currículo, sujeitos contemporâneos, gênero e raça.

Referências

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Publicado

2026-11-04