BEBER O MAR COM AS MÃOS EM CONCHA: QUANDO O CORPO FEMININO ENCONTRA O QUE NÃO PODE CONTROLAR NA CLÍNICA GESTÁLTICA

Autores

Palavras-chave:

Corpo feminino, clarice lispector, Imperativo de Controle, Gestalt-Terapia, Gênero

Resumo

Este trabalho investiga o que a imensidão evocada pelo mar produz no corpo de mulheres cisgênero cujo padrão de contato é organizado pelo controle, a partir do uso do conto Banhos de Mar, de Clarice Lispector, como meditação guiada em sessões clínicas online na Gestalt-terapia. Segato (2012) demonstra que o controle sobre o corpo feminino é produto do projeto colonial moderno. Queiroz (1997) mostra como esse controle se sedimenta no modo de perceber. Zanello (2018) demonstra como esse imperativo produz corpos em vigilância permanente que interrompem sistematicamente o contato com a própria experiência. A Gestalt-terapia, base epistemológica e clínica do trabalho, propõe que o trabalho clínico consiste em criar as condições para que o contato interrompido possa ser retomado. A escolha de Clarice não é apenas clínica: é política, pois sua obra opera de dentro da experiência feminina (Queiroz, 1997; Nunes, 1989; Gotlib, 2013). A pesquisa adota abordagem fenomenológica de base existencial (Amatuzzi, 2001), com Versões de Sentido e gravações de áudio transcritas pela pesquisadora como instrumentos. O protocolo foi aplicado em 15 sessões com mulheres cisgênero ao longo de um ano. A análise de três casos demonstra que a imensidão evocada pelo conto encontra cada organismo no padrão específico pelo qual interrompe o contato: agonia diante do imprevisível, desconforto que nutre, pequenez como liberdade. O gesto de beber o mar com as mãos em concha não instrui o corpo sobre como contatar sem controlar: cria as condições para que cada corpo descubra sua própria forma de receber o que é imenso. Isso é simultaneamente clínico e político: por um momento, o organismo feminino escapa ao imperativo que o ensinou a dominar a própria experiência antes de habitá-la.

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Biografia do Autor

Beatriz Nascimento Andrade Moura, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Possui graduação em Psicologia pela FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIÊNCIAS (2019). Graduando em Licenciatura em Letras pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB).Especialista em Etnicidades, Educação e (De)colonialidades pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)

Referências

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Publicado

2026-11-04