A INTENSIFICAÇÃO DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO DOCENTE NO NOVO ENSINO MÉDIO: CONDIÇÕES DE TRABALHO E RESISTÊNCIA DE PROFESSORES DE GEOGRAFIA NAS ESCOLAS DO CAMPO DO SUDOESTE BAIANO
Palavras-chave:
Educação do Campo, Precarização do trabalho docente, Reforma do ensino médio, Trabalho docenteResumo
O estudo analisa como a Reforma do Ensino Médio, instituída pela Lei nº 13.415/2017, intensifica os processos de precarização do trabalho docente em escolas estaduais do campo situadas no Território de Identidade Sudoeste Baiano. A pesquisa parte da premissa de que a Educação do Campo, historicamente forjada pelas lutas dos movimentos sociais camponeses e pela defesa da emancipação humana, contrapõe-se à histórica Educação Rural e à racionalidade neoliberal da reforma empresarial da educação e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O objetivo central consiste em investigar as condições objetivas de trabalho dos professores de Geografia e gestores escolares da região, identificando os impactos concretos do modelo neotecnicista no cotidiano escolar e mapeando as práticas de resistência docente formuladas contra o desmonte da educação pública.
A fundamentação teórica e o percurso metodológico ancoram-se nos pressupostos do Materialismo Histórico e Dialético (MHD), pautando-se nas categorias de totalidade e contradição para captar o movimento entre a aparência dos discursos educacionais e a essência do capital. A abordagem qualitativa combinou revisão bibliográfica, análise documental e a realização de entrevistas semiestruturadas com professores de Geografia (identificados pelos pseudônimos Montanha, Vale, Colina e Chapada) e gestores escolares (Meandro, Praia, Duna e Restinga) de cinco Colégios Estaduais do Campo no Sudoeste Baiano. O arcabouço conceitual fundamenta-se nas contribuições de Roseli Caldart sobre Educação do Campo, Luiz Carlos de Freitas sobre a reforma empresarial, Pierre Dardot e Christian Laval sobre a razão neoliberal, Miguel Arroyo sobre a formação docente e Michael Apple sobre a dimensão ideológica dos materiais didáticos.
Os resultados e as discussões revelam que a precarização do trabalho docente se estrutura em quatro dimensões interligadas. A primeira refere-se à precariedade estrutural das instalações, marcada pela ausência de laboratórios, bibliotecas, refeitórios, quadras cobertas, saneamento adequado e internet de qualidade, além das dificuldades enfrentadas no transporte escolar rural. A segunda dimensão evidencia a ausência de políticas públicas estaduais de formação continuada voltadas às especificidades da Educação do Campo, cabendo às universidades e aos movimentos sociais suprir essa lacuna. A terceira dimensão expõe a inadequação dos materiais didáticos do PNLD, marcados pelo urbanocentrismo e pelo silenciamento dos saberes camponeses. A quarta dimensão traduz a imposição autoritária e verticalizada do Novo Ensino Médio, que transforma a gestão escolar em operação empresarial. Diante dessas contradições, os docentes exercem táticas de resistência, como a produção autônoma de conteúdos contextualizados e o uso adaptativo de tecnologias (a exemplo de inteligências generativas como o ChatGPT), operando limites práticos na manutenção do sentido emancipador da escola.
Em conclusão, a pesquisa confirma que a Reforma do Ensino Médio funciona como um vetor de aprofundamento da precarização e da desvalorização do trabalho docente nas escolas do campo no Sudoeste Baiano, subordinando a formação humana às exigências do mercado e fragilizando o direito dos camponeses a uma educação pública territorializada. O trabalho demonstra que as fragilidades de infraestrutura, formação e currículo constituem um projeto sistemático de adequação neotecnicista que desconsidera as identidades rurais. Por fim, o estudo ratifica a relevância da resistência docente local e da atuação dos movimentos sociais, reafirmando a escola do campo como um território de disputa política e epistemológica indispensável para a construção da justiça social e da emancipação humana.
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Referências
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