A Morte na Literatura Mesopotâmica: apontamentos sobre o Épico de Gilgamesh
Palavras-chave:
Morte, Mesopotâmia, Literatura, Imaginário social, Epopeia de GilgameshResumo
A criação de uma série de mitos e narrativas literárias foram a maneira pela qual as sociedades antigas e, de modo particular, a Mesopotâmia, encontraram de lidar com o problema da morte, amenizando a angústia causada pela ideia do não-mais-ser. Uma das mais belas composições da literatura mesopotâmica, o Épico de Gilgamesh, apresenta em suas versões uma reflexão sobre a vida entre os limites do existir e do não existir, na perspectiva de um homem que não queria morrer. A morte, nesse sentido, é o elemento primordial que conduz o leitor à mensagem final do épico, ou seja, à reflexão da efemeridade da vida, reforçando a concepção mesopotâmica de destino universal e inalterável da humanidade. O presente estudo tem como objetivo analisar a questão da morte enquanto um problema recorrente na literatura babilônica e que se manifesta como tema central no Épico de Gilgamesh, em suas diversas transformações.
Para isso, recorremos a leitura de uma bibliografia específica, fichamentos e cruzamento de dados direcionados às temáticas que a presente pesquisa visa interpretar, entender e analisar. Ora inserido em um contexto cosmológico, ora na descrição de fatos verossímeis, a morte surge enquanto sinônimo daquilo que se é desconhecido ou de finitude da vida humana. Em frustração, Gilgamesh se depara com o paradoxo do divino e do mortal: ainda que fosse 2/3 divino, sua parte mortal o deixa suscetível à limitação da vida. Apesar das variações entre as versões da história de Gilgamesh, a moral do épico não sofre transformações drásticas: é sempre a história de um herói, ora divinizado, ora humanizado, que parte numa jornada em busca da imortalidade ao ter sido tomado pelo medo de morrer. É importante destacar que a sociedade mesopotâmica é extremamente dinâmica, cuja narrativas e o próprio imaginário mudam
de acordo com os contextos sócio-políticos. Contudo, é possível notar no Épico de Gilgamesh que o tema da morte atravessa as variadas temporalidades e períodos da elaboração dessa obra. Em uma linha concomitante ao que foi apresentado, o presente estudo torna-se relevante dado a sua originalidade, dentro do campo da assiriologia, ao abordar e problematizar a morte enquanto aspecto da experiência humana, que foi incorporada à Epopeia de Gilgamesh enquanto linha condutora da trama. O fato é que, mesmo se tratando do épico mais antigo da história, pelo que se conhece, “estamos, portanto, diante de um campo de conhecimento novo” (BRANDÃO, 2017, p. 16). Nesse sentido, consideramos que a busca pela imortalidade e o medo da morte surgem enquanto aspectos fundamentais na narrativa de Gilgamesh. É a “luta” contra a morte o elemento primordial que conduz o leitor à mensagem final do épico, ou seja, à reflexão sobre os limites do existir e a efemeridade da vida.
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