PERCEPÇÃO DE INTEGRANTES DE COMUNIDADES EVANGÉLICAS SOBRE O CUIDADO DE PESSOAS EM SOFRIMENTO MENTAL
Palavras-chave:
Liberdade, Reforma Psiquiátrica, Religião e Ciência, Saúde MentalResumo
A saúde mental, historicamente, foi atravessada por concepções sociais, culturais e religiosas que, por séculos, associaram o sofrimento mental a crenças espirituais, punições divinas ou possessões demoníacas, resultando em exclusão e práticas desumanizadoras. No Brasil, a Reforma Psiquiátrica e a Lei n° 10.216/2001 introduziram uma nova ótica de cuidado em liberdade, com reinserção e autonomia da pessoa em sofrimento. Nesse cenário, comunidades evangélicas desempenham papel significativo ao colaborar no suporte emocional, social e espiritual de seus membros, oferecendo espaço de acolhimento e apoio. Nosso objetivo é compreender a percepção de integrantes de comunidades evangélicas sobre o cuidado de pessoas em sofrimento mental. Trata-se de uma pesquisa qualitativa desenvolvida por meio da técnica de Grupo Focal. Realizamos 4 encontros semanais, em fevereiro de 2025, com integrantes de comunidades evangélicas, participaram do estudo 11 pessoas, sendo 9 mulheres e 2 homens, com idade entre 22 e 46 anos e membros ativos de igrejas católicas e evangélicas de diferentes denominações. A análise revelou percepções ambíguas sobre saúde mental e cuidado, apresentando convergência de saberes religiosos, vivências pessoais e discursos biomédicos. A saúde mental foi compreendida em sua dimensão biopsicossocial-espiritual, enquanto o cuidado emergiu na inter-relação entre ciência e fé. Às falas revelaram complementaridade entre fé e ciência embora tensionadas, e atribuíram à família papel central, tanto como espaço de acolhimento quanto de sobrecarga. A palavra destacou-se como instrumento de cuidado, mas também como possibilidade de exclusão quando associada a estigmas. Concluímos que, nas comunidades evangélicas, o sofrimento mental é compreendido de modo ambíguo, articulando dimensões biomédicas, espirituais e sociais. Essa visão desvela-se como possibilidade de diálogo entre ciência e fé. A centralidade da família e a interação entre serviços de saúde e comunidades evangélicas aparecem como caminhos promissores para ampliar o acesso, reduzir estigmas e promover práticas de cuidado, reconhecendo a espiritualidade como parte indissociável do cuidado em liberdade.
Agência de fomento: IC-UESB
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