A RESISTÊNCIA LINGUÍSTICA NA SEGURANÇA PÚBLICA: UMA ANÁLISE SOCIOLINGUÍSTICA DO VOCABULÁRIO GÍRIO DOS AGENTES DE SEGURANÇA EM JEQUIÉ/BA

Autores/as

Palabras clave:

Sociolinguistica variacionista, Comunidade de prática, Gíria de grupo, Linguagem policial

Resumen

INTRODUÇÃO

A segurança é um pilar fundamental para o bem-estar social, ligada à qualidade de vida e ao crescimento socioeconômico (Rodrigues, 2009). Diante de cenários de (des)ordem global e avanço da criminalidade, as forças policiais combatem a violência e reforçam a percepção de proteção coletiva (Leeds, 2021). No Brasil, o aumento do crime exige adaptação a riscos complexos, realidade flagrante em Jequié/BA, município com elevados índices de mortes violentas decorrentes de disputas territoriais do tráfico (FBSP, 2023; Tomazela, 2023).

Nesse panorama de pressões externas, a linguagem — sob o viés laboviano — ultrapassa a transmissão de dados e reflete as reconfigurações estruturais, identitárias e de poder da sociedade (Pereira; Sousa, 2024). Grupos com rotinas de alta periculosidade desenvolvem normas próprias que os fazem constituir, entre outras características, legítimas comunidades de prática (Eckert, 2008). Na Polícia Militar, isso se concretiza em gírias de grupo: códigos estruturados para autoproteção do conteúdo falado, pertencimento institucional, identificação e otimização da fala (Preti, 2006; Pereira, 2023).

Frente às instabilidades locais, as práticas linguísticas da corporação operam de forma dicotômica: garantem a fluidez e a segurança das transmissões táticas (Dias, 2013) e atuam como estratégia de ordenação interna face às desordens externas. Assim, o problema de pesquisa delimita-se por meio da seguinte reflexão: de que modo o vocabulário gírio dos policiais de Jequié/BA é estruturado e utilizado? E, assim, como atua na identidade e proteção tática do grupo? O objetivo geral, diante dessa questão, é investigar o papel desse vocabulário sob a ótica da Sociolinguística Variacionista (Labov, 1994), analisando sua influência na comunicação interna e suas funções sociais e linguísticas.

METODOLOGIA

Para alcançar os objetivos, a pesquisa apoia-se na Sociolinguística Variacionista (Labov, 1994) e no conceito de comunidade de prática (Eckert, 2008). Adota-se uma abordagem mista (quali-quanti), classificada como descritiva, transversal e não-experimental (Sampieri et al., 1998; Gil, 2002). O caráter transversal justifica-se, pois, a coleta concentra-se em um recorte sincrônico para captar o fenômeno em seu contexto atual de uso.

A comunidade de prática envolve policiais militares de ambos os sexos, diferentes faixas etárias, escolaridades e patentes (soldados, cabos, subtenentes e tenentes) em Jequié/BA. O corpus será tripartite: fichas de perfil social, questionários estruturados e transcrições de entrevistas semiestruturadas, por revelarem as percepções dos participantes (Minayo, 2001). No plano quantitativo, o estudo rastreará a frequência do uso desses códigos, correlacionando-os às variáveis independentes. Como variáveis independentes linguísticas, consideram-se metaforização, economia linguística, extensão semântica e ampliação lexical; as extralinguísticas incluem posto hierárquico, sexo, faixa etária e escolaridade. A variável dependente, por sua vez, é a ocorrência e frequência de uso das gírias identificadas no corpus.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Por se tratar de uma pesquisa em andamento, foram concluídas as etapas de revisão bibliográfica, delimitação do objeto, definição das variáveis analíticas e elaboração dos instrumentos de coleta. A sistematização do referencial teórico permitiu identificar a recorrência de processos de metaforização, extensão semântica, ampliação lexical e codificação linguística em contextos marcados por relações de poder, sigilo e pertencimento grupal.

A literatura aponta que expressões da práxis policial — como as designações numéricas "021" (descontrole) e "051" (embriaguez), ou o vocábulo protetivo "Steve" (colega de farda) — reduzem ruídos e preservam o sigilo tático das ações (Dias, 2013). Perante a desordem gerada pela violência urbana (Azevedo, 2024), a linguagem tático-policial emerge como resposta adaptativa voltada à eficiência operacional e à sobrevivência.

As discussões preliminares indicam que essa variação semântico-lexical não é aleatória, mas motivada por demandas de coesão e autodefesa. Processos de metaforização e extensão semântica tornam o conteúdo menos acessível a indivíduos externos à comunidade de prática. Essa natureza criptológica assemelha-se à observada em outros contextos socioinstitucionais, como o ambiente de privação de liberdade (Pereira, 2023; Pereira; Sousa, 2024). Espera-se, com o desenvolvimento da pesquisa, demonstrar como variáveis sociais, especialmente o posto hierárquico e o tempo na corporação, influenciam a seleção e difusão dessas expressões identitárias.

CONCLUSÕES

A realização deste estudo, mesmo em sua etapa inicial, permite sinalizar a relevância de investigar o vocabulário policial militar sob o rigor metodológico da Sociolinguística Variacionista. As reflexões preliminares sugerem que a linguagem de grupo não se limita a um conjunto acessório de termos informais, mas constitui uma ferramenta estratégica de sobrevivência, ordenação e afirmação identitária diante das pressões sociais e operacionais vivenciadas no cotidiano da segurança pública.

Os pressupostos teóricos analisados indicam que a gíria policial pode mitigar as ambiguidades comunicativas em momentos críticos de atuação tática, impactando potencialmente a eficácia das ações coletivas e a preservação da integridade física dos agentes de segurança. Espera-se que a finalização da coleta e a respectiva tabulação quali-quanti dos dados forneçam à comunidade acadêmica e à própria instituição policial um mapeamento descritivo consistente acerca das dinâmicas linguísticas em contextos profissionais, demonstrando como a língua se move, se reorganiza e resiste face às complexas demandas estruturais da sociedade contemporânea e que as características de fala presentes em um comunidade com atividades profissionais comuns fazem desse grupo uma comunidade de fala.

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Biografía del autor/a

Roberto Cláudio Mendes dos Santos Filho, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vitória da Conquista, Bahia, Brasil

Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Linguística da UESB. Especialista em Direito Constitucional pela Faculdade Única/Grupo ProMinas. Graduado em Direito pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, campus de Vitória da Conquista. Licenciado em Letras pelo Centro Universitário ETEP. Professor do curso de Direito da Faculdade Anhanguera, campus Jequié. Membro do Grupo de Estudos em Linguística Histórica e em (Sócio) Funcionalismo (Grujpo Janus) - CNPq. Foi Diretor de Finanças e Patrimônio e Coordenador-Geral do Centro Acadêmico Ruy Medeiros- CARM/UESB, Conselheiro Universitário e membro do Diretório Central dos Estudantes. Atuou na Assessoria Jurídica do Escritório PRB Advogados, com ênfase no Direito Bancário e Direito do Trabalho. Radialista Profissional (9116/BA) e Cronista Esportivo (ABCD 1808). Advogado inscrito na OAB, Seccional Bahia, sob o n 74.630.

Valéria Viana Sousa, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vitória da Conquista, Bahia, Brasil

Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (1993), possui especialização em Língua Portuguesa pelo PREPES/PUC - MG (2001) e doutorado em Letras, área de concentração em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB (2008). É professora titular da Area de Língua Portuguesa e Linguística (ALPL), no Departamento de Estudos Linguísticos e Literários (DELL), da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB desde 1996. Coordena o projeto de pesquisa ''Estudos de Fenômenos Linguísticos na Perspectiva Funcionalista a partir da descrição e análise de corpus da comunidade de fala de Vitória da Conquista'' e o projeto de pesquisa ''Investigação de fenômenos linguísticos à luz das teorias funcionalistas em interface com o ensino''. É líder do Grupo de Estudos em Linguística Histórica e em (Sócio) Funcionalismo (Grujpo Janus) - CNPq e coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Sociolinguística e em (Sócio)Funcionalismo - LAPESF-CEPELin- PPGLin/UESB. É membro do Núcleo de Estudos Linguísticos sobre o Português em Uso (PorUs), integrado por pesquisadores da UFF,USP, UFES. Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Sociolinguística, Funcionalismo/Gramaticalização, Sociofuncionalismo e Linguística Funcional Centrada no Uso.

Citas

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Publicado

2026-11-04