A MODERNIDADE EM O AGENTE SECRETO (2025)
Palabras clave:
Cinema brasileiro, Ditadura militar, Modernidade, MundializaçãoResumen
A MODERNIDADE EM O AGENTE SECRETO (2025)
Dener Santos Silveira
Professor Titular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vitória da Conquista, BA, Brasil
https://orcid.org/0000-0003-3485-6715
Lara Limoeiro
Universidade de Brasília
Doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil
laralimoeiro@outlook.com
https://orcid.org/0009-0001-1604-0205
Introdução
Em território pernambucano, desde a década de 70 com a produção cinematográfica Super 8, atravessando o cinema de Retomada, inaugurada pela obra Baile Perfumado (1997) até o cinema de Pós Retomada, a partir de O Som ao Redor (2012), é possível visualizar a forte ligação com a discussão acerca da modernidade enquanto produção ética de certo estilo de vida, observada nas obras através dos fluxos de imagens e pessoas de fora que adentram o território, produzindo novas paisagens imaginativas que se alastram no local.
Fruto dessa estrutura de sentimentos, a mais recente obra do diretor Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto (2025), também nos coloca a possibilidade de reconhecer os atravessamentos da modernidade por meio de fluxos nacionais e globais no território diegético de Recife em 1977, produzindo assim novas interpretações acerca da temática, agora situada temporalmente durante o Regime Ditatorial Militar.
Aqui proponho a análise do modo em que esses fluxos representativos da modernidade passam a se manifestar na obra, tendo como objetivo mapear como estes passam a ser interpretados pelas partes sociais ao longo da diegese, buscando primeiramente classificar estes fluxos; após isso, desdobro como estes passam a se capilarizar e interagir no cotidiano dos sujeitos, passando a ser subvertidas a partir das elaborações locais tendo como emblema desse regime de pensamento o folclore da “Perna Cabeluda”.
Discussão
No primeiro momento do trabalho é feito o mapeamento dos fluxos culturais que atravessam o território e de que modo estes são agenciados pelas figuras representantes do Estado. Partindo das imagens iniciais, músicas nacionais e internacionais, imagens do cinema hollywoodiano, discos, etc, mapeia-se as manifestações desses fluxos através dos meios de comunicação, como rádio, toca-discos, televisão e cinema, sendo estes articulados de acordo com os interesses desses representantes na medida em que o Estado atua, desde a produção da Classificação Indicativa nos filmes, até a produção de informações que circulam na capital pernambucana, assim como em outras capitais, como o nome de Armando/Marcelo (Wagner Moura) como criminoso de Estado.
Para além disso, a capital pernambucana diegética é atravessada pelas tradições carnavalescas da região, como o frevo tocando no edifício de Sebastiana e no centro da cidade, os mascarados do carnaval que pregam peça em Armando/Marcelo na estrada, assim como pelos mecanismos de coesão que precedem a força racional do Estado-nação como o símbolo católico da cruz carregada por personagens em diferentes posições na trama, como Sebastiana, Delegado Euclides, a avó de Fernando e presente também nas instituições, ao lado da figura de Geisel. Esses fluxos culturais passam a interagir de modo hierárquico de forma que seus bens simbólicos passem a ser classificados e articulados em perspectiva valorativa, como exemplo no capô do caminhão a frase “Twist de pobre é macumba”.
Para Appadurai (2004), a modernidade possibilitada pelos meios de comunicação torna possível que a imaginação perpasse o exercício individual e assuma a dimensão de prática social. Nesse sentido, os sujeitos não apenas estão submetidos a estes fluxos de modo passivo, sendo também capazes de formular a partir deles torções significativas que se efetuam nas práticas modernas do cotidiano, de modo que os signos nacionais e globais atuem como contextos na medida em que servem de cenário para a imaginação, paisagem imaginativa na qual o pensamento passa a ser articulado. No filme um homem na frente do cinema São Luiz, com o filme A Profecia de Richard Donner em cartaz exibido, prega as palavras religiosas da salvação divina, de modo que a imagem enquanto produto dos fluxos globais desterritorializados passe a ser significada pelo sujeito a partir da genealogia do espaço em que ele se encontra.
Essas imagens desterritorializadas oferecem aos seus consumidores possibilidades de vida a serem assimiladas através da crença: ao sair do cinema, Elza (Maria Fernanda Cândido) é perguntada sobre o que achou do filme que acabara de assistir e responde: “Olha, eu não sou religiosa, mas deu medo”, fazendo associação entre a crença religiosa e a crença voltada às imagens modernas que circulam no território. Nesse sentido, a personagem nos possibilita elaborar que, ao passo que a religião tem a capacidade de conduzir a coesão das éticas e poéticas dentro do território em que se alastra, a modernidade observada através de seus significantes imagéticos, como obra que acabara de assistir, também é passível de exercer essas funções na medida em que evoca crenças comuns através da possibilidade de provocar afecções na medida em que se apresentam e são interpretadas como uma possibilidade de realidade.
Os exercícios imaginativos partidos dos diacríticos semióticos desterritorializados não permanecem apenas no âmbito individual, circulando entre as partes socias e atuando como potencia para ação: imagens do filme Tubarão de Spielberg se apresentam ao longo de toda a diegese pelas imagens de jornal e estampando as vitrines do Cinema São Luiz; no mesmo momento a informação de que um tubarão foi encontrado na costa de Recife com uma perna humana em seu interior passa a ocupar às rádios e manchetes de jornais. Ambas as imagens passam a fortalecer o imaginário, uma acerca da outra, acontecendo da confusão de Fernando, filho de Marcelo/Armando, assim como todo o público do cinema, fazendo com que a procura do filme hollywoodiano aumentasse por conta da notícia.
Assim, esses fluxos passam a não só impor um regime entre dizibilidade e visibilidade em contraponto aos silenciamentos, estes também estão passíveis de serem reapropriados pelas partes sociais contando com seus repertórios genealógicos e cotidianos para tecer uma percepção acerca desses ditos/vistos. Desse modo, a percepção articulada por esses sujeitos de diferentes posições pode estar em passibilidade com a semiótica oficial, assim como pode apontar para uma ironização e resistência a ela, manifestado nos desentendimentos temporais e espaciais entrelaçados na inflexão dessas imagens.
É possível ver ao longo da diegese a disseminação de práticas contradisciplinares exercidas pelas figuras que representam as instituições, de modo que para manter sua regularidade afirmada oficialmente, os sujeitos que a compõem passam a se utilizar de táticas (Certeau, 2013) que se capilarizam sem serem documentadas ou visibilizadas, fazendo com que os policiais roubem a perna do Instituto Médico Legal (IML), mantendo a boa imagem da instituição e encobrindo o crime cometido. Do mesmo modo, essas práticas também passam a ser exercidas pelas partes desse sistema de modo a desafiar o silenciamento instituído no regime de realidade, capturando oportunidades e desafiando seus lugares de passivos diante o espetáculo de fluxos que se apresentam, elaborando uma memória própria.
O folclore da Perna Cabeluda aparece na obra como emblema ao passo que sua possibilidade está atrelada aos regimes de verdade e silenciamento impostos, interditando a circulação de informações que vá de encontro às memórias hegemônicas traçadas pelo Estado-nação moderno; na mesma medida, articulada como forma de resistência e propagado pelo imaginário coletivo, a perna cabeluda emerge como fabulação que é capaz de fazer circular a violência policial sem deixar rastros cartográficos, como por exemplo o jornal que tem em sua manchete “Perna rouba perna do IML”, permitindo que seja cultivada uma memória que desmentem os arquivos.
Conclusão
Ao acompanhar os fluxos da modernidade em O Agente Secreto (2025), espera-se demonstrar que estes não operam como forças homogêneas ou unidirecionais, mas como processos continuamente reinterpretados pelos sujeitos em suas práticas cotidianas. A análise das imagens-cristal (Deleuze, 2018b) permite evidenciar como os signos da modernização, ao se inserirem em contextos locais, produzem tensões entre projetos hegemônicos de ordenamento social e formas situadas de apropriação. Nesse movimento, a obra revela que as identidades e narrativas constituídas pela modernidade são permanentemente atravessadas por disputas de sentido, deslocamentos temporais e reelaborações culturais. Assim, o filme não apenas apresenta transformações históricas e sociais, mas produz imagens capazes de desestabilizar versões oficiais da história, abrindo espaço para a emergência de memórias, temporalidades e experiências que escapam aos regimes dominantes de verdade.
Metodologia
Os critérios metodológicos que guiam o desenvolvimento do argumento se desdobram a partir do conceito de imagem-cristal (Deleuze, 2018b), submetendo as imagens ao movimento de profundidade articulando-as dentro de critérios hierárquicos que classificam a sua percepção, após isso, situando-as enquanto lençóis temporais de um conjunto localizável e por fim restituindo as potencialidades alcançadas pela interrupção da linearidade das imagens em contato direto com o Tempo, sendo capaz de criar coalescências que vão além do regime representativo condicionado pela produção de verdade. As imagens da obra O Agente Secreto (2025) cessam na sua atuação representativa na medida em que retoma sua potencialidade de agir como produção de uma realidade pautada no falseamento das informações, permitindo que sejam articuladas novas interpretações que fogem à margem da produção da história hegemônica.
Palavras-chave: Cinema brasileiro; Ditadura Militar; Modernidade; Mundialização.
Referências
APPADURAI, Arjun. Dimensões culturais da globalização: a modernidade sem peias. Lisboa: Teorema, 2004.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
DELEUZE, Gilles. Cinema 2: a imagem-tempo. Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Editora 34, 2018.
MENDONÇA, Kleber. O agente secreto. São Paulo: Amarcord, 2025.
ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo: Brasiliense, 1988.
ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 2006.
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Citas
APPADURAI, Arjun. Dimensões culturais da globalização: a modernidade sem peias. Lisboa: Teorema, 2004.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
DELEUZE, Gilles. Cinema 2: a imagem-tempo. Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Editora 34, 2018.
MENDONÇA, Kleber. O agente secreto. São Paulo: Amarcord, 2025.
ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo: Brasiliense, 1988.
ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 2006.
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