A PRESENÇA INDÍGENA NOS DEBATES AMBIENTAIS GLOBAIS ENTRE A CONFERÊNCIA DOS CIDADÃOS (1986) E A COP 30 (2025): CONTINUIDADES E RUPTURAS

Autores/as

Palabras clave:

Povos indígenas, Ailton Krenak, Governança ambiental, COP 30

Resumen

O trabalho analisa a trajetória da participação política dos povos indígenas nos debates ambientais internacionais e sua busca por justiça climática, comparando a atuação do movimento originário na década de 1980 com o cenário contemporâneo. A investigação toma como ponto de partida o episódio "Ailton Krenak nos EUA", transmitido em 1986 pelo Programa de Índio da Rádio USP, no qual o líder indígena relata sua denúncia na Conferência dos Cidadãos, em Washington, contra os impactos socioambientais de grandes projetos de infraestrutura financiados pelo Banco Mundial (BIRD) e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) na Amazônia. O objetivo central consiste em estabelecer uma análise comparativa entre a histórica denúncia do cerco desenvolvimentista amazônico em 1986 e a atuação das lideranças indígenas na COP 30, realizada em Belém do Pará, examinando as continuidades, os avanços institucionais e as permanências estruturais na exclusão desses sujeitos das instâncias deliberativas globais.

A fundamentação teórica e o percurso metodológico caracterizam-se por uma abordagem qualitativa de cunho documental, historiográfico e bibliográfico. O corpus empírico primário é constituído pela transcrição do episódio radiofônico do Programa de Índio — preservado no âmbito do projeto Letras e Lutas Indígenas no Brasil do Grupo de Pesquisa em Práticas e Narrativas (GPPEN) —, complementado pela análise do relatório executivo e de matérias jornalísticas cobrindo a COP 30. O procedimento metodológico pauta-se no método comparativo-histórico para cotejar o discurso crítico de Krenak sobre os empreendimentos do regime militar (como a Rodovia Transamazônica, o Projeto Carajás, a BR-364, a Perimetral Norte e as hidrelétricas do Xingu e Tocantins) com os relatórios e as mobilizações sociais ocorridas na conferência do clima em Belém, confrontando as narrativas oficiais de inclusão com a efetiva participação política dos povos originários.

Os resultados e as discussões revelam que a atuação de Ailton Krenak em 1986 constituiu um marco de protagonismo internacional ao desintermediar a relação entre as comunidades afetadas e os organismos multilaterais de crédito, denunciando que os financiamentos internacionais funcionavam como políticas para "bancar o desastre" e endividar o país enquanto ignoravam as contrapartidas de demarcação de terras. Ao cruzar esse registro histórico com a COP 30, o estudo observa que, embora tenha havido um avanço formal na representação — com a presença histórica de mais de três mil indígenas —, persistiram barreiras estruturais de acesso, evidenciadas pelo fato de apenas cerca de 360 representantes terem obtido credenciamento para a Zona Azul de negociações oficiais. Essa assimetria motivou protestos contra a expansão do agronegócio, da mineração e da exploração petroleira, demonstrando a contradição entre a retórica institucional de sustentabilidade e a manutenção dos povos indígenas em posições periféricas nas decisões sobre seus próprios territórios.

Em conclusão, a pesquisa confirma a atualidade do pensamento e da crítica sistêmica de Ailton Krenak, demonstrando que as pautas de proteção florestal, direitos territoriais e oposição à lógica mercantil predatória permanecem no centro das lutas originárias após quatro décadas. O estudo conclui que, apesar das conquistas históricas de visibilidade e ocupação de espaços de governança ambiental pelos povos indígenas, mantêm-se estruturas arcaicas de estagnação que insistem em subordinar modos de vida sustentáveis ao imperativo da exploração econômica. Por fim, o trabalho ratifica que as cosmologias e filosofias indígenas não constituem abordagens do passado, mas alternativas utópicas e concretas para o enfrentamento da emergência climática e a reconstrução do desenvolvimento global.

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Biografía del autor/a

Maria Isabel Maliarenko Castilho, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/ Bahia/ Brasil

Graduanda em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), com experiência nas áreas de Jornalismo e Comunicação Social, especialmente em narrativas de história de vida e Neurolinguística Discursiva, com foco em estudos sobre afasia. No momento presente, atua como voluntária de Iniciação Científica no Grupo de Pesquisa em Práticas e Narrativas (GPPEN).

Ricardo Martins Valle, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/ Bahia/ Brasil

Possui graduação em Letras pela Universidade de São Paulo (1998), Mestrado (2004) e Doutorado (2010), em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (2004), sob a orientação do Prof. Dr. João Adolfo Hansen. Desde novembro de 2005, é professor na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vitória da Conquista, atuando nos cursos de graduação e mestrado. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em História Literária, História Colonial, Letras do Antigo Regime, Literatura Brasileira, Literatura e História Indígena, considerando principalmente os seguinte campos-tema: literatura luso-brasileira, letras coloniais, práticas de representação nos séculos XVI, XVII e XVIII; retórica, poética, direito natural, direito das nações, política monárquica, filosofia e teologia-política; literatura brasileira (séculos XIX e XX), historiografia e historiografia literária; literatura indígena, guerras índias, direitos indígenas; genocídio linguístico, etnocídio e educação. Entre 2012 e 2018, conduziu um projeto de educação indígena junto às comunidades Yanomami do Rio Marauiá, em parceria com a indigenista Profa. Anne Ballester Soares. Desde 2015, integra o Programa de Pós-graduação em 'Letras: Cultura, Educação e Linguagens'-PPGCEL, UESB, orientando trabalhos em literatura brasileira e narrativas indígenas. Entre 2012 e 2018, coordenou o Programa de Extensão Continuada 'Laboratório de Difusão de Repertórios: Educação Multidisciplinar' - DELL, por meio do qual promove trocas de saberes junto às comunidades yanomami do Rio Marauiá, em Santa Isabel do Rio Negro, Amazonas, e busca ampliar redes de contato e de troca multilateral de conhecimento com os Tupinambá, do Território Indígena de Olivença e Serra do Padeiro.

Citas

KRENAK, Ailton. Ailton Krenak nos EUA. Programa de Índio, 12 out. 1986. Programa de rádio. Disponível em: https://ikore.com.br/programa/ailton-krenak-nos-eua/. Acesso em: 2 jun. 2026.

COP30. Relatório executivo da COP30. Belém: Presidência da COP30, 2026. Disponível em: https://cop30.br/pt-br/relatorio-executivo-da-cop30. Acesso em: 2 jun. 2026.

Publicado

2026-11-04