DAS NARRATIVAS AS EXPERIÊNCIAS DAS MULHERES NEGRAS QUILOMBOLAS DE BARRA DA PARATECA
Palabras clave:
Decolonialidade, Escrevivências, Memórias, Narrativas das Mulheres NegrasResumen
O estudo investiga o protagonismo, a preservação da memória e os processos de resistência das mulheres negras na comunidade quilombola de Barra da Parateca, no município de Carinhanha, Bahia, problematizando o silenciamento e as omissões da historiografia local sobre suas trajetórias. A pesquisa parte da constatação de que a literatura e os documentos oficiais da região historicamente negaram, invisibilizaram ou desqualificaram o papel feminino na formação sociocultural do território, tratando esses sujeitos como figuras secundárias. O objetivo central consiste em analisar como as narrativas e os relatos orais dessas mulheres descolonizam a história local, identificando as estratégias de afirmação identitária, a transmissão de saberes ancestrais entre gerações e as formas pelas quais a interseccionalidade entre raça, gênero, classe e territorialidade orienta a luta pelo direito à terra e pela manutenção da cultura comunitária.
A fundamentação teórica e o percurso metodológico orientam-se pela abordagem etnográfica e pela perspectiva decolonial, utilizando as categorias de escrevivência conceituadas por Conceição Evaristo, os estudos de matriz africana, a perspectiva contracolonial de Nêgo Bispo, o pensamento de Lélia Gonzalez, Stuart Hall, Patricia Hill Collins e bell hooks. Os procedimentos empíricos envolveram incursões de campo no território de Barra da Parateca, pautando-se pelo levantamento de fontes orais e pela análise documental de registros memorialistas, livros locais, acervos fotográficos e atas comunitárias. As informações foram produzidas por meio de entrevistas semiestruturadas e conversas informais com lideranças femininas de diferentes faixas etárias — desde anciãs e mães de santo até jovens militantes —, examinando de forma qualitativa o conteúdo dos depoimentos sob o prisma das disputas discursivas de poder e da valorização dos saberes populares.
Os resultados e as discussões revelam que as mulheres atuam como o principal cinturão de proteção e transmissão dos patrimônios culturais, medicinais e espirituais do quilombo, desempenhando papéis de destaque nas associações comunitárias, na agricultura de subsistência e nas mediações dos conflitos fundiários contra a expansão do latifúndio. Os achados indicam que as anciãs garantem a permanência dos rituais, rezarias, causos e práticas com plantas medicinais, ao passo que as mulheres mais jovens ressignificam essa herança em busca de autonomia, acesso ao ensino superior e fortalecimento político, sem romper com o vínculo ancestral. As narrativas demonstram que, embora enfraquecidas ou omitidas pelos registros historiográficos hegemônicos, as práticas cotidianas e o engajamento religioso (no Candomblé e na Umbanda) constituem tecnologias de resistência que desestabilizam o racismo estrutural e as opressões de gênero, articulando identidades múltiplas e dinâmicas que garantem a sobrevivência e a soberania do território.
Em conclusão, a investigação evidencia que a escuta e a visibilização das vozes das mulheres de Barra da Parateca operam como epistemologias descolonizantes e contracoloniais capazes de reescrever a história de Carinhanha a partir da perspectiva dos sujeitos subalternizados. O estudo ratifica que o ativismo e a vivência comunitária dessas mulheres — desenvolvidos frequentemente à margem das teorias feministas acadêmicas formais — constituem a espinha dorsal da organização comunitária e da preservação da memória quilombola. Por fim, o trabalho demonstra a importância de integrar os saberes e as narrativas das mulheres negras aos acervos educacionais e historiográficos, reafirmando o protagonismo feminino na construção do tecido social, na defesa da terra e na transformação política do meio rural baiano.
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Citas
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