A LINGUAGEM QUE CAPTURA: MEMÓRIA, HERMENÊUTICA E AUTORITARISMO ESCRAVISTA EM PAI CONTRA MÃE, DE MACHADO DE ASSIS
Palavras-chave:
Machado de Assis, Memória, Escravidão, Paul Ricouer, HermenêuticaResumo
Este trabalho analisa o conto Pai contra Mãe, de Machado de Assis, publicado em Relíquias de casa velha em 1906, com o objetivo de compreender de que modo a narrativa configura literariamente a memória da escravidão e revela os mecanismos simbólicos, sociais e morais que sustentaram o autoritarismo escravista no Brasil. Parte-se da hipótese de que o conto não apenas representa a violência da escravidão, mas a reinscreve como estrutura de sentido que atravessa a família, o trabalho, a propriedade, a maternidade e a hierarquização do valor da vida. A pesquisa é de natureza qualitativa, bibliográfica e hermenêutica, tendo como corpus o conto machadiano. O referencial teórico fundamenta-se principalmente na hermenêutica fenomenológica de Paul Ricoeur, especialmente nas categorias de configuração da intriga, identidade narrativa, rastro, testemunho, esquecimento e dever de memória. Dialoga-se ainda com Michael Pollak, a partir das noções de silêncios, não-ditos e memórias subterrâneas; com Roberto Schwarz, pela compreensão da lógica do favor e da dependência na sociedade brasileira; e com Alfredo Bosi, pelo olhar crítico sobre as ambiguidades morais da ficção machadiana. A análise evidencia que Machado de Assis constrói uma memória crítica da escravidão por meio de uma linguagem contida, irônica e eticamente incisiva. A captura de Arminda, mulher escravizada e grávida, por Cândido Neves, homem livre pobre que sobrevive caçando pessoas fugidas, revela como a violência escravista se naturaliza nas práticas ordinárias e transforma sofrimento alheio em condição de sobrevivência. Conclui-se que Pai contra Mãe refigura a experiência do leitor ao expor os rastros de uma violência histórica ainda atuante na memória social brasileira, fazendo da literatura espaço de interpretação, denúncia e resistência ao esquecimento.
Downloads
Referências
ASSIS, Machado de. Pai contra mãe. In: ASSIS, Machado de. Relíquias de casa velha. Rio de Janeiro: Garnier, 1906.
BOSI, Alfredo. Machado de Assis: o enigma do olhar. São Paulo: Ática, 1999.
POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução de Alain François et al. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa: a intriga e a narrativa histórica. Tradução de Claudia Berliner. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. v. 1.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. 5. ed. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000.
SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. 4. ed. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Colóquio Nacional e Colóquio Internacional do Museu Pedagógico da UESB

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Você é livre para:
Compartilhar - copia e redistribui o material em qualquer meio ou formato; Adapte - remixe, transforme e construa a partir do material para qualquer propósito, mesmo comercialmente. Esta licença é aceitável para Obras Culturais Livres. O licenciante não pode revogar essas liberdades, desde que você siga os termos da licença.
Sob os seguintes termos:
Atribuição - você deve dar o crédito apropriado, fornecer um link para a licença e indicar se alguma alteração foi feita. Você pode fazer isso de qualquer maneira razoável, mas não de uma forma que sugira que você ou seu uso seja aprovado pelo licenciante.
Não há restrições adicionais - Você não pode aplicar termos legais ou medidas tecnológicas que restrinjam legalmente outros para fazer qualquer uso permitido pela licença.