ANÚNCIO OU DENÚNCIA? DITADURA E PUBLICIDADE NO BRASIL DOS ANOS DE CHUMBO

Autores

Palavras-chave:

Publicidade, Ditadura, Censura

Resumo

O trabalho investiga as relações entre a propaganda e o Estado autoritário no momento de consolidação da sociedade de consumo sob a ditadura militar brasileira (1964-1985), tomando a publicidade como tipo específico de produção cultural também sujeita à censura da época, cujos mecanismos se intensificaram sobretudo a partir do AI-5 (1968) e do Decreto-lei nº 1.077/1970. Metodologicamente, a pesquisa analisa peças publicitárias veiculadas em revistas semanais (Veja, Manchete, O Cruzeiro), na mensal Realidade e em jornais diários de grande circulação, dialogando com autores que investigam a relação entre publicidade e ditadura, como Cartoce (2017; 2023), Chagas (2021), Netto (2018) e Silva (2009), com foco em peças que ousaram tematizar censura e tortura apesar do contexto repressivo.

Os resultados, baseados em dados do Relatório de 1978 do Departamento de Censura e Diversões Públicas (DCDP), evidenciam o efetivo controle estatal sobre a produção cultural — quase 600.000 produções examinadas e 237.971 proibidas naquele ano, incluindo material publicitário —, e destacam o caso emblemático do anúncio do televisor Philips 550 (Revista Veja, 1969), que associa o produto a um chicote e à frase "Na câmara de torturas o TV Philips 550 resistiu a tudo", ambiguamente lido como anúncio ou denúncia. Conclui-se que as ações censórias contra a publicidade constituíram apenas rusgas pontuais em uma relação de afinidade harmoniosa entre o setor publicitário e a ditadura, que se beneficiou do discurso ufanista e anticomunista e viveu expressivo crescimento econômico no período, evidenciando a arquitetura panóptica do poder ditatorial, voltada a intimidar, adequar e disseminar a autocensura.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Orlando José Ribeiro de Oliveira, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Pós-Doutorado em Estudos Étnicos e Africanos (POSAFRO/UFBA), Doutor em Ciências Sociais (UFBA, 2017). Professor de Antropologia e Cultura Brasileira da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Mestre em Desenvolvimento Sustentável - Política e Gestão Ambiental (UnB, 2009). Especialista em Ciências Sociais (UFBA, 1981) e em Ciência da Computação (UESB, 1997), Graduado em Arquitetura (Universidade Federal da Bahia, 1977).

Referências

CARTOCE, R. O milagre anunciado: publicidade e ditadura militar brasileira (1968-1973). Dissertação (Mestrado em Filosofia) – USP, São Paulo, 2017.

______. Toalhas, revistas e uma bicicleta: o milagre econômico nas páginas publicitárias. In: SILVA, J. (org.). Histórias anunciadas: publicidade e ditadura no Brasil dos anos 1970. Fortaleza, Imprensa Universitária da UFC, 2023.

CHAGAS, B. Do anúncio à denúncia, do consórcio ao divórcio: a publicidade brasileira frente à censura e à autorregulamentação. In: SILVA, J. (org.). Histórias anunciadas: publicidade e ditadura no Brasil dos anos 1970. Fortaleza, Imprensa Universitária da UFC, 2023.

FICO, C. Espionagem, polícia política, censura e propaganda: os pilares básicos da repressão. In: FERREIRA, J.; DELGADO, L. (org.). O tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

NETTO, D. Nação, nacionalismo e cultura: uma análise da propaganda brasileira durante a ditadura militar. In: SILVA, J. (org.). Histórias anunciadas: publicidade e ditadura no Brasil dos anos 1970. Fortaleza, Imprensa Universitária da UFC, 2023.

RIDENTI, M. Censura e Ditaduras no Brasil, do golpe à transição democrática: 1964-1988. Concinnitas, v. 19, n. 33, dez., 2018.

ROCHA, M. A nova retórica do capital: a publicidade brasileira em tempos neoliberais. São Paulo: EDUSP, 2010.

SILVA, J. P. (org.). Histórias Anunciadas: publicidade e ditadura nos anos 1970. Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 2023.

______. O Brasil em pílulas de 1 minuto: publicidade, história e cotidiano no Brasil entre os anos 60 e 80. Tese (Doutorado em História). Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2009.

Downloads

Publicado

2026-11-04