SUBJETIVAÇÃO DE MULHERES NEGRAS E SELETIVIDADE PENAL: DISCURSOS MIDIÁTICOS SOBRE O ENCARCERAMENTO FEMININO NO BRASIL

Autores

Palavras-chave:

Encarceramento, Feminilidade, Mídia, Seletividade, Subjetivação

Resumo

A pesquisa tem como objetivo geral analisar como os discursos midiáticos presentes no documentário À Luz do Cárcere (2025) produzem subjetividades marcadas pela seletividade do sistema penal brasileiro, buscando compreender a seletividade penal e sua contribuição para o encarceramento de mulheres negras, investigar como os discursos do documentário participam da construção dessas subjetividades e identificar como dispositivos de poder e controle atravessam as vivências dessas mulheres no cárcere. Fundamentada na arqueogenealogia foucaultiana (Gregolin, 2022), em diálogo com Juliana Borges (2020), Angela Davis (2016) e Rosa Maria Bueno Fischer (2021) sobre raça, gênero e sistema penal, a pesquisa constitui seu corpus a partir de recortes do documentário exibido pela Record TV, gravado no Presídio Feminino de Bangu (RJ), focando especificamente no depoimento de Cassiane Victoria Martins, mulher negra de 21 anos encarcerada por tráfico de drogas.

Os resultados evidenciam que as mulheres encarceradas sofrem dupla invisibilidade — de gênero, em uma estrutura prisional historicamente masculina, e social, decorrente de modelos patriarcais de feminilidade —, sendo o encarceramento feminino assentado em bases interseccionais entre sexismo e racismo institucional, atingindo majoritariamente mulheres negras e pobres criminalizadas por delitos de menor potencial ofensivo. A análise do depoimento de Cassiane revela que a mídia participa ativamente da produção de subjetividades ao vincular a inserção feminina no tráfico à vulnerabilidade afetiva e à influência de vínculos amorosos, reforçando regimes de verdade que naturalizam a criminalidade feminina como consequência da dependência emocional e da proteção ao companheiro. Conclui-se que o encarceramento feminino não ocorre de forma neutra, estando atravessado por relações históricas de poder marcadas pelo racismo, sexismo e criminalização da pobreza, e que a mídia, embora possibilite visibilidade a experiências silenciadas, reproduz discursos estigmatizantes que reduzem essas mulheres à condição de infratoras.

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Biografia do Autor

Bárbara Santos de Almeida, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Graduanda em Direito pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Possui formação técnica em Informática. Pesquisadora bolsista de Iniciação Científica vinculada ao Grupo de Pesquisa em Estudos Feministas VIVAS (UESB) e diretora da Liga Acadêmica de Ciências Criminais (LACCRIM/UESB). Participa do curso de extensão Encarceramento em Massa, Direitos e Articulações Antiprisionalistas (UNEB). Desenvolve pesquisas nas áreas de Direito Penal, com ênfase em feminismos, sistema de justiça criminal e encarceramento.

Janaina de Jesus Santos , Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Realizou Estágio pós-doutoral (2018-2019) no Programa de Pós-Graduação em Letras: cultura, educação e linguagens, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB, possui Doutorado em Linguística e Língua Portuguesa (2014) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquista Filho - UNESP, Mestrado em Estudos Linguísticos (2011) pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Especialização em Linguística aplicada ao Ensino do Português (2006) e Graduação em Letras com habilitação em português e inglês e respectivas literaturas (2001) pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB. É professora titular na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB, atua no Programa de Pós-graduação em Letras: Cultura, Educação e Linguagem -PPGCEL/UESB e Programa de Pós-graduação em Ensino, Linguagem e Sociedade - PPGELS/UNEB e participa do Grupo de Pesquisa em Estudos Feministas (Viva's - GEPEF). Atua nas áreas de Estudos Discursivos Foucaultianos, Ensino, Formação de professores, Linguística Aplicada, com interesse nos temas: feminismos, ensinos e linguagens, formação de professores de línguas, currículo, sujeitos contemporâneos, gênero e raça.

Referências

À Luz do cárcere. Programa Domingo Espetacular. São Paulo: Record TV, 2025. Disponível em: PlayPlus.

BORGES, Juliana. Encarceramento em massa. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.

BRASIL. Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN). Levantamento nacional de informações penitenciárias (INFOPEN). Brasília: Ministério da Justiça e Segurança Pública, 2024.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução de Heci Regina Candiani. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2016.

FISCHER, Rosa Maria Bueno. Mídia e educação da mulher: uma discussão teórica sobre modos de enunciar o feminino na TV. 2001.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1970.

NAVARRO, Pedro; SARGENTINI, Vanice. Por uma arqueogenealogia dos estudos discursivos foucaultianos no Brasil.

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Publicado

2026-11-04