ENTRE O GRANDE IRMÃO E OS ALGORITMOS: PRÁTICAS DE LINGUAGEM E LETRAMENTO CRÍTICO A PARTIR DA LEITURA DE 1984

Autores

Palavras-chave:

Letramento algorítmico crítico, Análise dialógica do discurso, Interdisciplinaridade, Linguística textual, Literatura distópica

Resumo

O estudo analisa as percepções e as estratégias discursivas de estudantes do 3º ano do Ensino Médio sobre o controle digital e o funcionamento dos algoritmos nas redes sociais, buscando fundamentar uma proposta de intervenção pedagógica interdisciplinar que articule a Linguística Textual (LT), a Análise Dialógica do Discurso (ADD) e a Literacia Estatística da Matemática a partir da leitura da obra 1984, de George Orwell. A pesquisa parte da constatação de que as juventudes contemporâneas vivenciam uma intensa imersão nas arquiteturas digitais, mas frequentemente mantêm uma postura ingênua diante da mineração de dados e da modulação de comportamentos promovida pelas corporações de tecnologia. O objetivo central consiste em diagnosticar o nível de letramento algorítmico crítico dos alunos para justificar a necessidade de integrar a análise linguístico-discursiva e o letramento estatístico no desmonte dos discursos e das métricas que legitimam verdades no ciberespaço.

A fundamentação teórica e o percurso metodológico caracterizam-se por uma abordagem qualitativa e interpretativista, estruturada como uma pesquisa-intervenção pedagógica em uma escola pública com 180 participantes. O arcabouço conceitual mobiliza a Linguística Textual para examinar os processos de referenciação, progressão temática e coerência; a Análise Dialógica do Discurso de matriz bakhtiniana para escutar as valorações axiológicas e os movimentos de responsividade dos sujeitos; e o diálogo com os conceitos de capitalismo de vigilância e letramento algorítmico. O corpus foi constituído a partir das respostas a um questionário diagnóstico dividido em quatro eixos, investigando o perfil de uso das redes (WhatsApp e Instagram), a percepção da vigilância e da coleta de dados, os critérios de fidedignidade na circulação de discursos e o estabelecimento de analogias entre a vigilância orwelliana e o monitoramento algorítmico atual.

Os resultados e as discussões revelam que, embora 100% dos estudantes utilizem plataformas digitais e 63% percebam que os conteúdos exibidos são personalizados, a maioria justifica essa filtragem por razões estritamente individuais e psicológicas, ignorando termos técnicos como perfilamento, mineração de dados ou a intencionalidade comercial das plataformas. No âmbito discursivo, 80% dos alunos reconhecem que determinados conteúdos possuem maior visibilidade, mas a repetição e a saturação de um enunciado na rede foram frequentemente tomadas como simulacro de autoridade e fidedignidade, em vez de estratégias métricas de impulsionamento. A análise da produção sintética permitiu mapear cinco perfis de letramento: a maioria fixou-se em analogias genéricas (40%) ou na substituição do "Grande Irmão" pelos dispositivos físicos (25%), enquanto apenas 10% demonstraram letramento algorítmico crítico avançado ao identificar que o controle social migrou do Estado totalitário para a engenharia de dados das corporações privadas.

Em conclusão, o diagnóstico confirma a opacidade técnica com que os estudantes interpretam o ambiente digital, evidenciando que a familiaridade prática com as redes não se traduz automaticamente em capacidade analítica. O trabalho reitera a urgência de superar o ensino fragmentado por meio de uma abordagem interdisciplinar em que a Matemática forneça ferramentas de modelagem estatística e análise de métricas, enquanto as ciências da linguagem desnaturalizem as dinâmicas de poder e valoração discursiva. Por fim, o estudo projeta as etapas subsequentes da pesquisa-intervenção, demonstrando que a fricção entre a literatura orwelliana, a análise linguística e a literacia estatística constitui um caminho promissor para emancipar os estudantes da recepção passiva e formar cidadãos críticos diante do capitalismo de vigilância.

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Biografia do Autor

Álvaro José Cheles Lima, Secretaria de Educação do Estado da Bahia/Vitória da Conquista/Bahia/Brasil

Especialista em Metodologia do Ensino da Matemática pela Faculdade Einstein (FACEI). Graduado no curso de Licenciatura em Matemática da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). É professor efetivo da Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC-BA). Foi professor de Matemática pela Secretaria Municipal de Educação de Vitória da Conquista (SMED) e pela Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais (SEE - MG).

Filipe Santos Guerra, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Doutor e Mestre em Linguística pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Especialista em Docência do Ensino Superior e Metodologias Ativas de Aprendizagem, e em Docência e Prática de Ensino em Português pelo Centro Universitário União das Américas (UNIAMÉRICA). Graduado no curso de Licenciatura em Letras Vernáculas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Graduando em Direito pela mesma instituição. É professor efetivo de Linguagens da Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC-BA). Foi professor de Língua Portuguesa pela Secretaria Municipal de Educação de Vitória da Conquista (SMED). Desenvolve pesquisa com financiamento federal nas áreas de Análise do Discurso e de Linguística de Texto, sendo membro e tendo sido bolsista CAPES do Grupo de Pesquisa em Estudos da Linguagem (GPEL/UESB) e bolsista CNPq do Círculo do Texto em Diálogo (UESB). Dedica-se, principalmente, aos seguintes temas: negacionismo e antinegacionismo digital, ativismo on-line, redes sociais virtuais, educação digital e midiática, gêneros discursivos digitais, heterodiscurso, polifonia e responsividade enunciativa responsável.

Referências

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2016.

COTTER, K.; REISDORF, B. Algorithmic knowledge gaps: A new dimension of (digital) inequality. International Journal of Communication, 20, 745-765, 2020.

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GUERRA, F. S. Discursos Virais em Perspectiva Dialógica: matizes de (anti)negacionismo em posts e comentários de Facebook. 236f. (Tese – Doutorado em Linguística). Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Programa de Pós-Graduação em Linguística, Vitória da Conquista (no prelo).

KOCH, I. G. V. Desvendando os segredos do texto. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2015.

ORWELL, G. 1984. Tradução de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

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Publicado

2026-11-04