ENTRE A CASA E O MAGISTÉRIO: A CONSTITUIÇÃO DE UMA FAMÍLIA DOCENTE DE MULHERES NO SUL DA BAHIA
Palavras-chave:
Famílias docentes, Trajetória docente, Lar docente, História da educaçãoResumo
O estudo analisa a constituição e a permanência da docência na família do Ouro em Canavieiras, Bahia, investigando de que maneira a trajetória da professora Geny do Ouro influenciou o ingresso e a atuação profissional de suas sobrinhas no magistério público entre as décadas de 1950 e 1990. Derivado de um recorte de dissertação de mestrado em História da Educação, o trabalho problematiza a transmissão intergeracional de saberes pedagógicos no espaço doméstico e comunitário, destacando a especificidade de um núcleo familiar composto por mulheres negras e de classes populares. O objetivo central consiste em compreender como as experiências de formação, inserção institucional e liderança escolar de Geny estabeleceram as bases para a emergência de uma "família docente" e a estruturação de um "lar docente", conforme as abordagens teóricas de Lau e Silva, Munhoz e Vidal, e Almeida sobre o magistério como estratégia de autonomia e legitimação social feminina.
A fundamentação teórica e o percurso metodológico caracterizam-se por uma abordagem qualitativa do tipo documental e historiográfica, voltada para a reconstrução de trajetórias docentes no sul da Bahia. O corpus empírico mobilizado articula documentos primários não analisados anteriormente — especificamente as fichas formais de trabalho das professoras da família do Ouro, pertencentes aos arquivos escolares e estaduais — com a história oral, representada por uma entrevista semiestruturada concedida pela professora Gildete do Ouro. O cruzamento analítico das fontes orais e escritas permitiu mapear os marcos formativos do grupo, os locais de atuação, o tempo de serviço e a ocupação de cargos de gestão, contextualizando esses dados no cenário educacional do município após a criação do Ginásio Estadual Osmario Batista em 1958.
Os resultados e as discussões revelam que Geny do Ouro desempenhou papel estruturante tanto no provimento familiar, ao criar dezessete sobrinhos, quanto na mediação cultural e na construção de redes de sociabilidade profissional no município. A análise das fontes demonstra que a conclusão tardia do ginásio aos 26 anos por Geny, seguida pela realização simultânea dos cursos de Magistério e Contabilidade e pelo início da carreira como professora leiga, abriu caminhos para que suas sobrinhas (Gildete, Jael e Selma) reproduzissem os mesmos percursos formativos e profissionais. Os achados indicam que o ambiente doméstico funcionou como um lar docente em que circulavam saberes práticos da profissão, levando as sobrinhas a ingressarem na mesma escola primária municipal, a atuarem na docência de contabilidade e matemática e a assumirem cargos de direção e vice-direção escolar, consolidando a docência como projeto familiar de ascensão social e independência financeira.
Em conclusão, a pesquisa confirma que a família do Ouro constitui um exemplo expressivo de lar e família docente na historiografia da educação baiana, evidenciando que a escolha e a permanência na carreira docente foram gestadas no interior das relações de parentesco. O trabalho demonstra que a liderança de Geny do Ouro projetou suas sobrinhas no espaço público e educacional de Canavieiras, reiterando a importância do magistério para a inserção social e profissional de mulheres negras no século XX. Por fim, o estudo ratifica a relevância de resgatar trajetórias de professoras do interior baiano por meio da articulação entre arquivos documentais e memória oral, assegurando que suas contribuições e identidades permaneçam preservadas nos registros da história da educação regional.
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Referências
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