ENTRE O LULISMO E O NEOCARLISMO, MEMÓRIA DISCURSIVA E CULTURA POLÍTICA NAS ELEIÇÕES DE 2022 EM MACARANI (BA)
Palavras-chave:
Análise de discurso, Macarani, Cultura Política, Memória discursivaResumo
O estudo analisa o funcionamento da memória política enquanto dispositivo de legitimação discursiva e disputa eleitoral no município de Macarani, situado na região do Médio Sudoeste da Bahia, durante o pleito de 2022. O trabalho problematiza como a dinâmica política local articula a herança histórica do carlismo e suas configurações contemporâneas (o neocarlismo) com o avanço do lulismo e a polarização nacional entre lulismo e bolsonarismo. O objetivo central reside em compreender as estratégias discursivas empregadas pelas lideranças locais para gerir contradições ideológicas e construir efeitos de verdade por meio de palavras, silêncios, imagens de campanha e reportagens da imprensa regional, recorrendo ao pragmatismo e às reatualizações da memória para sustentar o poder político no âmbito municipal.
A fundamentação teórica e a metodologia alinham-se aos princípios da Análise do Discurso (AD) de filiação francesa desenvolvida por Michel Pêcheux, articulando os conceitos de memória discursiva de Jean-Jacques Courtine, memória coletiva de Maurice Halbwachs e modernização conservadora de Barrington Moore. A abordagem qualitativa debruçou-se sobre um corpus composto por materialidades visuais e textuais coletadas ao longo da campanha de 2022 em Macarani, incluindo duas fotografias de propaganda eleitoral e duas matérias jornalísticas de portais locais. O procedimento analítico examinou o batimento entre o texto e a imagem, mapeando as posições-sujeito, as formações discursivas em jogo, os sentidos da memória regional e o papel do silenciamento intencional na acomodação de alianças heterogêneas.
Os resultados e as discussões indicam que a política em Macarani funciona regida pela flexibilidade instrumental e pela hibridez discursiva em vez de uma coerência programática rígida. A análise da campanha favorável a Lula e Jerônimo Rodrigues evidencia uma memória de identificação popular e afetiva, todavia, o grupo governista liderado pela prefeita Selma Souto mobiliza um apoio velado, recorrendo ao silêncio estratégico sobre a figura presidencial para integrar em sua base arranjos locais com lideranças carlistas e bolsonaristas. Em contraposição, o grupo de oposição articulado pelos ex-prefeitos Carlinhos e Nogueira adota uma formação discursiva explícita de adesão ao neocarlismo representado por ACM Neto, ancorando sua legitimidade na tradição, no mandonismo e na autoridade verticalizada. A pesquisa demonstra que esses movimentos não constituem meras incoerências, mas estratégias deliberadas de sobrevivência e manutenção de alianças.
Em conclusão, a investigação confirma que a memória discursiva operou como o principal campo de disputa e normalização do poder nas eleições de 2022 em Macarani. O carlismo permanece ativo e ressignificado na cultura política sertaneja, enquanto o lulismo funciona como um poderoso polo de atração eleitoral que, contudo, é frequentemente silenciado para acomodar pactos conservadores locais. O trabalho evidencia que a articulação entre palavra, imagem, reportagem e silêncio é decisiva na construção de consensos e legitimidades, demonstrando a relevância da Análise do Discurso para desvelar as ambiguidades e os implícitos que sustentam as relações de poder na política baiana contemporânea.
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Referências
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