“COMO FAÇO PARA TIRAR 1000 NA REDAÇÃO, PROFESSOR?”: A ENGENHARIA DA NOTA MÁXIMA SOB A ÓTICA DA MODELAGEM CONSTRUCIONAL
Palavras-chave:
Linguística Funcional Centrada no Uso, Redação do ENEM, Construção Discursiva, Ensino de línguaResumo
Não é incomum, nas aulas de Redação, sobretudo ao final das séries finais do ensino médio, que os alunos questionem quais critérios, além das competências avaliadas, são considerados para que uma redação obtenha a nota 1000 no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Considerando esse questionamento recorrente no contexto escolar, este estudo, ancorado na Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU) e em diálogo com a Linguística de Texto, tem como objetivo investigar os fatores formais e funcionais presentes na redação do ENEM que possibilitam alcançar a nota máxima. Para tanto, foram mobilizados os estudos de Marcuschi (2008), Garcia (2010) e Koch e Elias (2016) para a análise do gênero, e de Bybee (2010), Traugott e Trousdale (2013) e Sabino (2015) para a abordagem construcional da linguagem. Do ponto de vista metodológico, a pesquisa, de natureza qualitativa, analisou três parágrafos introdutórios de redações nota 1000, avaliadas nos anos de 2022, 2023 e 2024, conforme os textos divulgados pelo INEP nas cartilhas do participante desses anos. Os resultados preliminares indicam que as redações compartilham elementos formais e funcionais, apresentando um padrão textual relativamente convencionalizado, com formas linguísticas recorrentes. No nível da microconstrução, foram identificados, em cada introdução, elementos convencionais relacionados à presença de repertório, apresentação do tema/tese e primeiros argumentos, com a função de situar o leitor e introduzir o ponto de vista do autor. No nível do subesquema, observou-se, do ponto de vista formal, o uso recorrente de estruturas rotinizadas de parágrafo-padrão (Garcia, 2010), com a função de contextualizar o problema discutido. Já no nível mais abstrato, o do esquema, destacou-se a organização estrutural clássica (introdução, desenvolvimento e conclusão), cuja função principal é defender um ponto de vista e persuadir o leitor por meio de estratégias argumentativas. Assim, apesar das diferenças e especificidades microconstrucionais e subesquemáticas entre os textos, os dados analisados sugerem que esses elementos são regulados por um princípio mais amplo de formulação do padrão discursivo da redação do ENEM. Os resultados, ainda iniciais, contribuem não apenas para a compreensão, por parte dos alunos, do funcionamento do gênero em sala de aula, mas também para o aperfeiçoamento da prática docente, ao evidenciar os padrões construcionais que fundamentam o ensino da produção textual. Por fim, este estudo busca, ainda, oferecer uma contribuição à Linguística Funcional Centrada no Uso, ao aplicar seus pressupostos analíticos ao nível mais abstrato da organização linguística, representado pelo gênero textual.
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Referências
BYBEE, J. 2010. Language, usage and cognition. Cambridge: Cambridge University Press.
FRIED, M.; ÖSTMAN, J. (orgs.). Construction grammar in a cross-language perspective. Amsterdam; Philadelphia: John Benjamins, 2005.
GARCIA, O. M. Comunicação em prosa moderna. 27. ed. Rio de Janeiro: Ed. da FGV, 2010.
MARCUSCHI, L. A. Produção textual: análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
TRAUGOTT, E.C.; TROUSDALE, G. Constructionalization and Constructional Changes. Oxford: Oxford University Press, 2013.
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