A CONSTITUIÇÃO DE SENTIDOS NA DESIGNAÇÃO “MUDINHO” EM UMA CHARGE

Autores

Palavras-chave:

Surdez, Libras, Linguagem multimodal

Resumo

A pesquisa analisa o funcionamento enunciativo da designação mudinho em uma charge que tematiza a surdez, sob a perspectiva da Semântica do Acontecimento, buscando compreender como essa forma de nomeação produz sentidos sobre o sujeito surdo. Fundamentado em Guimarães (2002, 2018), o estudo compreende a enunciação como acontecimento de linguagem atravessado pela relação entre sujeito, língua, história e pelo político, entendido como conflito de sentidos, e dialoga com os Estudos Surdos e com autores como Quadros e Karnopp (2004), Laborit (1994), Vilhalva (2004) e Xavier, Lima e Cordeiro (2023). O corpus é constituído por uma charge que mobiliza a designação mudinho em referência a uma pessoa surda, sendo analisados conjuntamente os elementos verbais e imagéticos que constituem sua materialidade multimodal. A análise do recorte evidencia que a designação mudinho mobiliza memoráveis associados ao capacitismo e a sentidos que relacionam a surdez à mudez, ao silêncio, à incapacidade e à incomunicabilidade, apagando a Libras como língua legítima e a surdez como diferença linguística e cultural. Nos enunciados “Lá vem o mudinho. Eu não entendo nada o que ele ‘fala’!” e “Eu também. Vamos sair de fininho”, observa-se a produção de sentidos de deslegitimação da forma de comunicação do sujeito surdo e de afastamento social, reforçados pela articulação entre a linguagem verbal e os elementos visuais da charge. A análise evidencia ainda um conflito político entre a valorização de diferentes línguas institucionalizadas, representadas pelos cursos de inglês, japonês, árabe, alemão e russo, e a deslegitimação da língua de sinais, reduzida à condição de fala incompreensível. Conclui-se que a designação mudinho contribui para a circulação e naturalização de sentidos pejorativos sobre a surdez, reforçando práticas de exclusão e invisibilização das pessoas surdas. Nesse sentido, confirma-se a hipótese de que os memoráveis mobilizados pela designação associam a surdez à ausência de linguagem e à incomunicabilidade, evidenciando a necessidade de reconhecer a Libras como língua legítima e de problematizar formas de nomeação que produzem sentidos discriminatórios sobre a comunidade surda.

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Biografia do Autor

Marcelle Bittencourt Xavier, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vitória da Conquista, Bahia, Brasil

Possui graduação em Administração pela Faculdade de Tecnologia e Ciências (2006), graduação em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Santa Cruz (2014) e mestrado em LETRAS: CULTURA, EDUCAÇÃO E LINGUAGENS pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (2018). Doutora em Linguística pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

Florisbete de Jesus Silva, Secretaria Municipal de Educação

Florisbete de Jesus Silva é Doutora em Linguística, pela Universidade Estadual de Campinas, Mestra em Linguística, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Mestra em Ciências da Educação, pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias - Lisboa - Portugal. Especialista em Letras - Português/Literatura, pelas Faculdades Integradas de Jacarepaguá e graduada em Letras, pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Formadora nas áreas de Língua Portuguesa. Professora de Língua Portuguesa, no Município de Porto Seguro-Bahia. Tem experiência na Educação, atuando principalmente nas seguintes áreas: alfabetização, leitura, interpretação e produção de textos; estudos de gênero, análise de material didático. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Linguagem, Enunciação, Discurso (LED) da Unicamp, do Grupo de Pesquisa em Estudos Semânticos (Gepes) da Uesb e do Grupo de Pesquisa CONEXÕES: Produção de Conhecimento e Ensino (UNEB/CNPq)

Referências

BRITO, Ana Clara Nunes. Neologismos meméticos: sentidos construídos na relação entre enunciação, imagem e humor. 2026. 88 f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Programa de Pós-Graduação em Linguística, Vitória da Conquista, 2026. Orientador: Adilson Ventura da Silva.

GUIMARÃES, Eduardo [2002]. Semântica do acontecimento: um estudo enunciativo da designação. 2.ed. Campinas, SP: Pontes, 2005.

GUIMARÃES, Eduardo. Semântica, enunciação e sentido. Campinas, SP: Pontes Editores, 2018.

LABORIT, Emmanuelle. O voo da gaivota. Tradução: Lelita de Oliveira. Escrito com a colaboração de Marie-Thérèse Cuny. São Paulo: Best Seller, 1994.

QUADROS, Ronice Müller de; KARNOPP, Lodenir Becker. Língua de

sinais brasileira: estudos linguísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.

VILHALVA, Shirley. Despertar do silêncio. Florianópolis: Arara Azul, 2004.

XAVIER, Marcelle Bittencourt; LIMA, Marcus Antônio Assis; CORDEIRO, Marcelo. Narrativas de vida como construção de identidades surdas. Vitória da Conquista: Edições UESB, 2023. 381 p. ISBN 978-65-87106-53-3.

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Publicado

2026-11-04